São Francisco Xavier

Apóstolo do Oriente e taumaturgo

Fogo devorador de um coração missionário

 São Francisco Xavier1

Abrasado pelo amor a Deus, Francisco Xavier inflamou os lugares por ele evangelizados, com o fogo do amor divino e o brilho de seus milagres.Missionário como ninguém, operando os mais espetaculares milagres paraconverter povos inteiros para Jesus Cristo, Francisco Xavier imitouo Divino Mestre até o fim.

Infância e conversão

A fortaleza medieval de Javier nunca teve destacada importância, nem na paz nem na guerra; Mas não há quem não tenha ouvido falar o seu nome, devido ao grande missionário jesuíta São Francisco Xavier, que ali nasceu.

S. Francisco Xavier viera ao mundo a 7 de Abril de 1506, numa terça-feira santa. D. Francisco de Jassu y Javier, como lhe chamavam no seu meio de nobreza, nasceu em 1506 no castelo de Xavier, quando o reino de Navarra era ainda inde­pendente. Era o quinto filho do Dr. João de Jassu e de D. Maria de Azpilcueta, senhores dos domínios de Xavier y Idocin.

A mãe, D. Maria de Azpilcueta, havia de gostar dessa criança, por ser o último rebento que ela daria ao tronco fidalgo da sua casa. Se ela, então, lesse no futuro, talvez sentisse alguma pena do seu menino, perdido pelo mundo, com os pés sujos da poeira de todos os ca­minhos e levando, nos ouvidos, o marulho de todos os mares.

Em 1520, quando Francisco tinha 14 anos, seus irmãos participaram do cerco de Pamplona, entre cujos defensores se encontrava Iñigo de Loyola, depois Santo Inácio.

Alguns anos mais tarde, em 1525, afastou-se de casa para estudar em Paris, onde sua residência era o colégio Santa Bárbara, ao que parece uma instituição destinada à hospedagem de estudantes espanhóis e portugueses.

Em 1529, Iñigo, que tinha ido a Paris estudar humanidades e procurar companheiros para a obra que pretendia fundar, também se tornou hóspede do Santa Bárbara. Francisco, como estudante mais antigo, foi indicado para orientar o novo hóspede nos passos iniciais de seus estudos. Porém, como nutria grande antipatia por Iñigo, Francisco passou essa tarefa a Pedro Fabro, que a aceitou com muito gosto e dela tirou grande proveito para sua alma. Francisco procurava de todos os modos afastar-se de Inácio, a quem considerava ridículo, zombando com sarcasmos de seus esforços para trazer as almas a Deus. Inácio já havia percebido grandes qualidades em Francisco, e procurou exercer alguma influência sobre ele. Por mais de dois anos seus esforços não obtiveram qualquer resultado.

A submissão completa de Francisco à direção de Inácio só se deu em setembro de 1534, mês que Francisco dedicou a um retiro segundo os Exercícios Espirituais que Inácio havia escrito. Nunca tal obra mostrou com maior eficácia seu poder de transformar um homem, como durante aquele mês em que Francisco lutava na solidão, entre anjos e demônios. Nem o próprio Inácio, que o visitou e aconselhou durante todo o tempo, era capaz de dominar por completo o fogo devorador que a meditação havia acendido em seu coração ardente de espanhol.

Foi, até o fim de sua vida, um homem apaixonado, capaz de iras santas sem deixar de ser um dos mais generosos. No fundo de seu coração era ainda um homem da Idade Média, que não media esforços para obedecer a Deus. Em certa ocasião, estourou um vaso sangüíneo seu, devido à energia com que rechaçou uma tentação.

Rumo ao Oriente

Para Santo Inácio de Loyola não havia dúvida. O Papa, para atender ao Rei João III de Portugal, estava pedindo-lhe membros de sua recém-fundada Companhia para evangelizar os domínios portugueses de ultramar. Como Francisco Xavier era o único de seus discípulos disponível no momento para acompanhar Simão Rodríguez, teria que ir. No entanto, dos seus primeiros filhos espirituais, Xavier era o predileto, aquele que planejara ter consigo como conselheiro e provável sucessor. Mas Inácio de Loyola havia escolhido como lema de sua milícia Ad Majorem Dei Gloriam (Tudo para a maior glória de Deus). Se bem que tivesse sentimentos muito profundos, não era um sentimental. Chamou logo Francisco. Sempre pronto a obedecer, o futuro Apóstolo das Índias exclamou: “Pues! Heme aqui!” (Estou pronto! Vamos!).

No dia 16 de março de 1540, provido dos títulos de Núncio Papal e Embaixador de Portugal para os países do Oriente, Francisco Xavier foi despedir-se de seu pai espiritual. Santo Inácio, pondo-lhe as mãos sobre os ombros, percebeu que a batina era muito rala. “Como, meu caro Francisco! Ides cruzar as neves dos Alpes com roupa tão leve?” O discípulo sorriu timidamente. “Depressa, desvestindo sua própria batina, o Fundador da Companhia de Jesus tirou uma veste de flanela que estava usando, e fê-la vestir em Xavier. Era como se, com essa parte de sua vestimenta, desse uma parte de si mesmo ao filho que partia”. “Ide: acendei e inflamai todo o mundo”, foram as últimas palavras do antigo capitão de Pamplona ao ex-mestre do Colégio de Beauvais.

Essas palavras tornaram-se proféticas, pois o que esse fidalgo espanhol fez o resto de sua vida não foi senão inflamar tudo com o ardente fogo de seu amor de Deus.

Reformando a “Goa dourada, a Roma do Oriente”

No dia 6 de maio de 1542, aportava na remota e lendária Índia, depois de conturbada viagem de treze meses, o filho dileto de Santo Inácio de Loyola. As portas da Ásia abriam-se diante desse sacerdote de apenas 35 anos de idade.

Seu primeiro campo de ação foi a cidade de Goa, principal colônia portuguesa no Oriente, onde os europeus esquecidos de sua missão civilizadora, dedicavam-se a um lucrativo comércio e se deixavam arrastar pela sensualidade e pelos vícios do mundo pagão.

Essa cidade, capital das possessões portuguesas no Oriente, atraíra toda sorte de soldados de fortuna e aventureiros, os quais, longe de sua pátria, família, parentes e conhecidos, tinham caído numa vida licenciosa que escandalizava não só seus correligionários, mas até os pagãos.

Dom João de Castro, um dos maiores vice-reis das Índias, descreve assim a situação de Goa à sua chegada: “As cobiças e os vícios têm cobrado tamanha posse e autoridade, que nenhuma coisa já se pode fazer por feia e torpe, que dos homens seja estranha”.

Impelido “pela necessidade de perder a vida temporal para socorrer a espiritual de seu próximo”, São Francisco Xavier atirou-se ao trabalho, começando pelas crianças e doentes. Aos poucos sua fama no confessionário e no púlpito atingiu outras áreas, e gente de todas categorias passou a procurá-lo para purificar sua alma. “Aqui em Goa eu moro no hospital, onde confesso e dou a comunhão para os enfermos. Mesmo assim, é tão grande o número dos que vêm pedir-me para ouvir confissões que, se eu estivesse em dez lugares ao mesmo tempo, não teria falta de penitentes”, escreveu ele a Santo Inácio apenas um mês depois de sua chegada.

Goa, a “dourada” ou a “Roma do Oriente”, era uma cidade cosmopolita e tinha atraído gente de todas as partes do mundo. São Francisco Xavier viu a necessidade de criar uma escola de nível médio para ajudar a evangelização. Menos de um ano depois de sua chegada, tinha já fundado o Colégio da Santa Fé. Sua finalidade, como ele explica, era “para que os nativos destas terras e os de diferentes nações e raças possam ser instruídos na fé. E para que, quando tiverem sido bem instruídos, sejam enviados às suas pátrias, de modo que ganhem fruto com o ensinamento que receberam”.

Os “filhos de São Francisco Xavier”

Depois de passar alguns meses nessa cidade, rumou Francisco para terras ainda mais distantes. Toda a costa sul da península indiana foi percorrida por ele. E a partir de então, sua vida tornou-se um ininterrupto peregrinar por terras, mares e ilhas longínquas, alargando sem cessar as fronteiras do Reino de Jesus.

Sua presença era requisitada também em outras partes: “Num reino longe daqui (Travancore, sudoeste da Índia), Deus moveu muitas pessoas a se fazerem cristãs. De tal modo que, num só mês, batizei mais de dez mil, homens, mulheres e crianças”. Nessa nova área ele foi recebido pelo marajá “com honras, e tratado com gentileza”; o rei deu a ele “permissão para pregar o Evangelho em todo seu reino, e para batizar aqueles de seus súditos que quisessem tornar-se cristãos”.

Como escreveu para os membros da Companhia, em Goa “eu tenho estado ocupado batizando todos os infantes. […] Os mais velhos deles não me dão paz, pedindo-me sempre para ensinar-lhes novas orações. Eles não me dão tempo para rezar meu breviário nem para comer”.

São Francisco Xavier desceu até o extremo sul da Índia para evangelizar os Paravas, quase todos pescadores de pérolas. “Padre Francisco fala desses Paravas como de uma nobre raça, inteligente, trabalhadora e perseverante, a única tribo na Índia que se tornou inteiramente católica. […] Eles se orgulham de chamar-se a si próprios ‘os filhos de São Francisco Xavier’”, escreve um Prelado no início do século passado.

Foi nessa Costa da Pescaria que o “Padre Francisco” realizou muitos dos seus mais espetaculares milagres. Foram tantos e tão notáveis, que fica difícil a escolha.

Uma vez os ferozes Badagas cruzaram as montanhas, devastando o Travancore. O marajá, mal preparado para fazer face a esse perigo, apelou a São Francisco Xavier. O apóstolo juntou-se ao improvisado exército, colocando-se na primeira fila. Tão logo sua voz pôde ser ouvida do outro lado, “o Padre Francisco, segurando seu Crucifixo, caminhou para o inimigo […] e gritou em alta voz: ‘Em nome de Deus, o terrível, eu vos ordeno que pareis’”. Os badagas das filas dianteiras, aterrorizados, pararam e começaram a recuar. A debandada foi total.

“Eu te ordeno, levanta-te dos mortos!”

A cidade de Quilon, entretanto, não se impressionava com esses milagres, e as palavras de fogo do apóstolo não penetravam nos corações endurecidos de seus habitantes. Um dia, quando estava rodeado por uma multidão a que não era capaz de tocar, o Santo ajoelhou-se e pediu fervorosamente a Deus que mudasse o coração e a vontade daquele povo obstinado. Depois de um instante, dirigiu-se ao local onde um jovem havia sido enterrado na véspera. Pediu que o desenterrassem. “Verifiquem todos se ele está mesmo morto”, disse à multidão. Alguns, ao abrirem o caixão, recuaram exclamando: “ele não só está morto, mas cheirando mal”. Xavier então ajoelhou-se e, com potente voz para que todos ouvissem, disse: “Em nome de Deus e em testemunho da fé que eu prego, eu te ordeno: levanta-te dos mortos”. Um tremor sacudiu o cadáver e a vida retornou plenamente a ele. O número das conversões foi grande, e a fama do milagre acompanhou Francisco Xavier através das Índias.

Para formar um clero nativo capaz de trabalhar entre seus irmãos, ele fundou mais quatro seminários: Cranganor, Baçaim, Coghim e Quilon.

Qual era o segredo da eficácia apostólica de São Francisco Xavier? Era uma heróica observância do maior mandamento de Cristo: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo teu entendimento” (Mt 22, 37). “Tenho tão grande confiança em Deus, cujo amor somente me move, que, sem hesitar, com o único bafejo do Espírito Santo, afrontei todas as tempestades do oceano na mais débil barca”.

O segundo apóstolo da Índia recorre ao primeiro

Para saber se deveria avançar mais para o Oriente em sua evangelização, Francisco resolve fazer um recolhimento junto ao túmulo de São Tomé, em Meliapor.

O segundo apóstolo da Índia, em contato com o primeiro, recebeu muitas graças: “Aqui Deus lembrou-se de mim segundo sua costumeira misericórdia; Ele tem consolado infinitamente minha alma, e me fez saber que é sua vontade que eu vá para Málaca, e de lá às outras ilhas da região”.

A voz lhe faltava, de tanto repetir o Credo

Nunca se mostrou mais heróico do que nas peregrinações efetuadas de vila em vila na Indonésia. No verão, era como caminhar sobre brasas, e na época das chuvas, no meio da lama; quando o vento do Índico soprava, enchia tudo de areia e pó; respirava-se pó, comia-se pó; o pó invadia tudo. Apesar de ser conhecida a quantidade de insetos que infestavam a Indonésia, não aparece em nenhuma carta sua o zumbido deles! Seu travesseiro era uma pedra, e só em Deus esperava.

Francisco Xavier era um homem que não conhecia o medo. Caminhava dezenas de milhas para um lado, centenas para outro, no meio de animais e homens selvagens, bem como de enfermidades. Ele mesmo relata que achava bárbara aquela gente ainda sujeita ao canibalismo. Havia ilha onde um de seus habitantes, quando queria dar uma grande festa, pedia a um vizinho seu o pai para ser comido, prometendo entregar-lhe o seu quando envelhecesse!

Único homem branco naquele mar de areia e sol, era incansável em sua faina apostólica. Muitas vezes, quase não podia mover o braço, devido ao grande número de batismos que conferia, e faltava-lhe a voz de tanto repetir o Credo e os Mandamentos.

Em um mês batizou mais de 10.000 pessoas. Para isso, juntava todos os homens e meninos; depois, mandava-os embora e chamava as mulheres e filhas. Após os batismos, determinava que se derrubassem as casas onde havia ídolos, quebrando-os em muitíssimos pedaços. Causava-lhe grande consolação ver os ídolos serem destruídos pelas mãos dos que foram idólatras. Xavier andava de lugar em lugar, transformando idólatras em cristãos.

No Império do Sol Nascente

Assim, enfunadas as velas de sua alma pelo sopro do Espírito Santo, com heróica generosidade Francisco Xavier fez de sua existência um contínuo “fiat mihi secundum verbum tuum”, lançando-se sempre, de ousadia em ousadia, à conquista de mais almas, para a maior glória de Deus.

Em 1547, escutou pela primeira vez notícias concretas do Japão quando conheceu os primeiros homens daquelas terras. “Fiquei completamente subjugado por ele“, disse o japonês Anjiró. Eu sentia fortalecer-se minha alma cada vez que o olhava, e bastava contemplar seu rosto para me encher de consolo e alegria”.

Certo dia, estando na cidade de Malaca, apresentaram-lhe um homem de olhos oblíquos e mirada inteligente, que havia percorrido centenas de milhas tendo por único intuito encontrar-se com o célebre e venerável ocidental que perdoava os pecados… Seu nome era Hashiro e sua terra natal, o Japão.

Imediatamente, vislumbrou Francisco a riqueza que seria para a Igreja se o povo representado por esse intrépido neófito fosse santificado pelas águas do Batismo. Escreveu então a seu fundador, em janeiro de 1549: “Não deixaria eu de ir ao Japão pelo muito que tenho sentido dentro de minha alma, ainda que possuísse a certeza de que haveria de passar pelos maiores perigos da minha vida, porque tenho grande esperança em Deus Nosso Senhor que nessas terras há de crescer muito nossa santa fé. Não poderia descrever quanta consolação interior sinto em fazer esta viagem ao Japão”.

Lutando contra adversidades de toda ordem, mais de dois anos passou Francisco no remotíssimo Império do Sol Nascente, fundando igrejas, anunciando a verdadeira fé a príncipes e nobres, a pobres camponeses e inocentes crianças. Em carta de novembro desse mesmo ano, declarou a seus irmãos residentes em Roma: “Pela experiência que temos do Japão, faço-lhes saber que seu povo é o melhor dos descobertos até agora”.

Entretanto, tendo como objetivo conseguir mais missionários para essa promissora terra, partiu de volta à Índia, deixando no Japão, que não mais o veria, uma robusta e florescente cristandade.

Sempre mais!

Depois de ter percorrido o Extremo Oriente em todas as direções durante dez anos e levantado a Cruz no arquipélago nipônico, o coração de Francisco, insaciável da glória de Deus, lançou- se a conquistar novos povos para seu Rei e Senhor: a China seria agora sua grande meta. Pela importância do império chinês, por sua incalculável população e, sobretudo, seu prestígio e riqueza cultural, compreendeu que, se fizesse nele correr as águas batismais, a Ásia inteira se prostraria aos pés do Divino Redentor.

“Este ano espero ir à China, pelo grande serviço a nosso Deus, que lá se poderá obter”, escreveu em janeiro de 1552 a seu pai, Inácio de Loyola. No mesmo ano, referindo-se a esta nação, comunicou a seus irmãos de vocação os anelos e esperanças de sua alma de missionário: “Vivemos com muita esperança de que, se Deus nosso Senhor nos der mais dez anos de vida, veremos grandes coisas nestas regiões. Pelos méritos infinitos da Morte e Paixão de Deus nosso Senhor, espero que Ele me dará a graça de fazer essa viagem à China”.

A última viagem

Retornando do Japão, pouco tempo se deteve o Pe. Francisco na Índia. Apenas o suficiente para atender as necessidades da Companhia de Jesus nessas terras e preparar a tão desejada viagem à China.

Um dedicado amigo do infatigável missionário, chamado Diogo Pereira, empregou toda a sua fortuna fretando um navio, carregando-o com esplêndidos presentes para o imperador da China e adquirindo magníficos paramentos de seda e de damasco, e todo tipo de ricos ornamentos para celebrar a Santa Missa com toda a pompa, de modo a dar aos chineses noção da grandeza da verdadeira religião que lhes seria anunciada.

Antes de viajar, o Santo escreveu ao Rei de Portugal, em abril de 1552: “Parto daqui a cinco dias para Malaca, que é o caminho da China, para ir dali, em companhia de Diogo Pereira, à corte do imperador da China. Levamos ricos presentes comprados por Diogo Pereira.

E da parte de Vossa Alteza levo um que nunca foi enviado por nenhum rei nem senhor a esse imperador: a Lei verdadeira de Jesus Cristo nosso Redentor e Senhor”. Assim, no dia 17 de abril de 1552, embarcou na nave Santa Cruz para conquistar o império de seus sonhos

“Desamparado de todo humano favor”

No entanto, poucos dias de navegação haviam transcorrido, quando desencadeou-se terrível tempestade. A tripulação do navio, espantada com a violência dos elementos e tendo perdido qualquer esperança de salvação, pedia com grandes clamores o sacramento da Penitência. Francisco Xavier, imperturbável, recolheu-se em profunda oração. E imediatamente – assim como outrora à voz do Divino Salvador as águas do Lago de Genezaré haviam-se acalmado – o vento cessou de soprar e as ondas tornaram-se suaves e calmas pela fé e pelas preces desse humilde conquistador de impérios.

Mas a partir deste momento, não cessaram os infernos de levantar obstáculos e contrariar a viagem. “Tende por certo e não duvideis que de modo algum quer o demônio que os da Companhia do nome de Jesus entrem na China” – escreveu ele em novembro de 1552 aos padres Francisco Pérez e Gaspar Barzeo.

Chegando à cidade de Malaca, última escala antes de penetrar em águas chinesas, inopinadamente, o capitão português desse porto – que, aliás, devia seu cargo aos bons ofícios e recomendações de Francisco – impediu a continuação da viagem, alegando que só a ele caberia o comando de uma expedição à China…

Tendo sido inúteis todas as súplicas e rogos, empregou Francisco Xavier um último recurso: apresentou a bula papal que o nomeava legado pontifício, a qual até então nunca havia utilizado, e exigiu a plena liberdade de viajar à China em nome do Papa e do Rei de Portugal.

Além disso, anunciou ao obstinado capitão que incorreria em excomunhão se continuasse a impedir a partida do navio. Sem embargo, também isso foi inútil. A ambição e a cobiça desse infeliz levaram-no ao extremo de insultar e maltratar aquele peregrino da glória de Deus.

Finalmente, após várias semanas de espera, a nave Santa Cruz pôde singrar as águas em direção à China, mas sob o comando de homens nomeados pelo capitão português, o qual morreu pouco tempo depois, excomungado e corroído pela lepra.

Com o coração partido, Francisco revelou ao Pe. Gaspar Barzeo em julho de 1552: “Não podereis acreditar quanto fui perseguido em Malaca. Vou para as ilhas de Cantão, no império da China, desamparado de todo humano favor”.

À espera do barco, olhando sem cessar para a meta.

Sancião era o nome dado pelos portugueses à inóspita ilha de Shangchuan, situada a 180 quilômetros da cidade de Cantão. Nessa ilha, onde os navios europeus costumavam aportar para comerciar com os chineses, desembarcou o santo missionário em outubro de 1552.

Esforçaram-se ali os portugueses por encontrar, entre os numerosos mercadores chineses, algum que se prontificasse a levá-lo a Cantão. Todos, porém, se escusavam, pois isso era vedado pelas leis imperiais, e os transgressores expunham-se a perder todos os haveres e até a própria vida. Por fim, um deles, decidido a correr o risco, se dispôs a transportar São Francisco numa pequena embarcação, mediante o pagamento de 200 cruzados.

“Os perigos que corremos neste empreendimento são dois, segundo a gente da terra: o primeiro é que o homem que nos leve, depois de receber os duzentos cruzados, nos abandone numa ilha deserta ou nos jogue no mar; o segundo é que, chegando a Cantão, o governador nos mande para o suplício ou para o cativeiro” – escreveu Xavier ao Pe. Francisco Pérez.

Esses perigos, porém, o infatigável apóstolo não os temia, pois seguro estava de que “sem a permissão de Deus, os demônios e seus asseclas nada podem contra nós”.

Acompanhado de apenas dois auxiliares, um indiano e um chinês, ficou na Ilha de Sancião à espera do retorno do comerciante que se comprometera a transportá-lo. Celebrava diariamente ali o Santo Sacrifício do Altar, olhando sem cessar para o continente pelo qual com tanto ardor suspirava. Mas os dias e as semanas se passaram, e em vão aguardou Francisco a volta do chinês: este infelizmente nunca retornou.

Últimas palavras de um santo

As forças físicas do ardoroso missionário chegaram então ao termo. Uma altíssima febre o obrigou a recolher-se em sua improvisada cabana, onde, desamparado dos homens e padecendo frio, fome e toda classe de privações, deveria passar os últimos dias de sua heróica existência nesta terra de exílio.

Àquele varão que não conhecera o cansaço, àquele apóstolo que com sua palavra arrastava multidões, àquele taumaturgo que havia ultrapassado grandes obstáculos operando milagres portentosos, o Senhor do Céu e da Terra reservava a mais heróica e gloriosa das mortes: a exemplo de seu Mestre Divino, Francisco Xavier morreria no auge do abandono e da aparente contradição.

Alguns dias antes de entregar seu espírito, entrou em delírio, revelando então a magnitude do holocausto que a Providência lhe pedia: falava continuamente da China, de seu veemente desejo de converter esse império e da glória que adviria para Deus se esse povo fosse atraído para a Santa Igreja Católica…

E nas primeiras horas da madrugada de 3 de dezembro de 1552, Francisco Xavier expirou docemente no Senhor, sem uma queixa ou reclamação, divisando ao longe aquela China que não conseguira conquistar e que tanto havia desejado depositar aos pés de seu Rei, Nosso Senhor Jesus Cristo.

Suas derradeiras palavras foram estas frases de um cântico de glória: In te, Domine, speravi. Non confundar in aeternum. Em Vós espero, Senhor. Não me abandoneis para sempre!

No caixão, seu olhar parecia vivo

Soprava com persistência o frio vento do norte e as ondas do oceano rompiam cada vez mais violentas naquela praia que parecia deserta. O céu, coberto de plúmbeas nuvens, escurecia rapidamente, prenunciando longa e tormentosa noite.

Não muito longe da beira do mar, elevava-se uma mísera cabana, feita com algumas pranchas de madeira carcomida, cuja cobertura de palha seca era agitada pelo vento glacial. Dentro dela, estendido sobre uma esteira, um homem agonizava. Seu corpo exangue ardia consumido pela febre, mas seu olhar profundo e vivo espelhava um espírito de fogo, refletia a eternidade… Morria o Apóstolo do Oriente, Francisco Xavier.

O amor que resplandecia em seus olhos negros, cheios de fogo, e queimava seus lábios, o levou deste mundo aos 46 anos. Foi uma morte pobre e humilde, como correspondia a um homem que imaginava que ninguém ia se lembrar dele. Doloroso paradoxo: graças a ele milhares de pessoas receberam, em sua última hora, os consolos da Igreja, o que não aconteceu com ele.

A chegada do corpo incorrupto em Goa, um ano mais tarde, foi sob o toque festivo de todos os sinos, como se fazia com um grande príncipe ou conquistador. Durante quatro dias a multidão enchia a igreja para beijar seus pés imóveis, que tanto haviam ali caminhado. Seus olhos negros se mantinham como se estivessem vivos, com um olhar penetrante. Era uma tão grande maravilha, que o comissário da Companhia holandesa se converteu instantaneamente.

Foi canonizado em 12 de março de 1622, junto com Santo Inácio, Santa Teresa de Jesus, São Felipe Neri e Santo Isidoro de Madri. Um cortejo digno de sua epopéia missionária.

No processo de canonização do grande Apóstolo do Oriente, a Santa Sé “reconheceu vinte e quatro ressurreições juridicamente provadas e oitenta e oito milagres admiráveis operados em vida pelo ilustre Santo”. Na bula de canonização são mencionados muitos milagres ocorridos em vida e depois da morte de São Francisco Xavier. Um deles foi que as lamparinas colocadas diante da imagem do Santo, em Colate, ardiam muitas vezes tanto com óleo como com água benta.

O último milagre relacionado a ele foi seu corpo incorrupto por séculos, cujos restos, mumificados e danificados por homens e elementos, podem ainda ser vistos em Goa, coroando um dos mais notáveis exemplos do Evangelho posto em prática.

A maior glória de Deus

À primeira vista, sobretudo para quem não tem seu olhar habituado a contemplar os horizontes infindos da Fé, a vida de São Francisco Xavier parece, em certo sentido, frustrada.

Quantas almas não se teriam salvo e quanta glória não haveria recebido a Santa Igreja se o imenso e super povoado império chinês houvesse sido evangelizado por este apóstolo de fogo! Entretanto, quando se encontrava ele, finalmente, às portas desta nação, depois de haver passado por dificuldades e combates de toda ordem, o chamado de Deus se fez ouvir: “Francisco, meu filho, cessa tua luta e vem a Mim!” Oh! mistério do Amor Infinito! De Francisco, Deus não queria a China… mas queria Francisco.

E o intrépido conquistador respondeu, sem hesitar, como Jesus no Horto das Oliveiras: “Senhor, faça-se a vossa vontade e não a minha”.

Reflexão

São Francisco Xavier acolheu o chamado do Senhor a evangelizar. Ele anunciou o Reino de amor e de paz aos povos distantes, tornando-se na fé luz para os corações…e exemplo daquele que serve. Tornou conhecido aos povos do Oriente os mistérios de Cristo. Encarnou na própria pessoa o Mestre manso e humilde de coração, vivo e ressuscitado. Mostrou a todos que o jugo do Senhor é suave e o peso, leve.

Deu testemunho de Jesus, com uma vida cheia de paciência, de bondade, de amor, de fortaleza e do santo temor de Deus. O Espírito do Senhor ungiu e confirmou as suas palavras e as suas obras.

Por sua intercessão, Senhor, nós vos pedimos: sejamos os missionários, os anunciadores da paz, da concórdia, do perdão, da reconciliação, da justiça, da alegria em nossos próprios lares e comunidades…Colaboremos para o incremento do Reino de Deus no coração dos homens… São Francisco Xavier, rogai por nós. Amém!

Fonte:

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/C0CD5D1D-3048-560B-1C80C0A5F230F0F8/mes/Dezembro1996

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/FD449592-A15B-B050-97FFE32E6416622B/mes/Dezembro2005

http://ideeanunciai.wordpress.com/2012/11/29/sao-francisco-xavier-03-de-dezembro/

Revista Arautos do Evangelho, Nov/2005, n. 47, p. 20 a 23

Grifos Nossos

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