Santo Ambrósio

1600 anos brilhando no firmamento da Igreja

 

Padroeiro de Milão, propugnador da virgindade, combateu vigorosamente a heresia ariana e não vacilou em censurar até Imperadores

 Santo Ambrósio1

Está bem longe de ser frequente que um governador ainda não batizado seja eleito Bispo, inesperadamente! Foi entretanto o que se deu com Santo Ambrósio, o famoso Bispo de Milão (norte da Itália). No dia 07 de dezembro de 374, recebeu ele a sagração episcopal.

A alvissareira notícia de sua sagração começou a circular rapidamente. São Basílio enviou ao novo Prelado, por sua nomeação, fraternas felicitações: Não conheço o teu rosto, mas a beleza de tua alma está diante dos meus olhos. Do meio de uma cidade real, Deus escolheu um homem eminente por sabedoria, nascimento, formosura de vida e pela eloquência de sua palavra; escolheu-o e colocou-o à frente do povo cristão“.

Nascimento e escolha ao episcopado

De nobre e distinta família romana, Ambrósio nasceu em Augusta Trevirorum, na Gália (hoje Trier, na Alemanha), em 334 ou 339, onde seu pai era prefeito. Sua mãe enviuvou muito cedo, retornando a Roma com três filhos: Marcelina, que se consagraria como virgem, Sátiro, que morreu em 378, e o caçula Ambrósio, que seguiu a carreira diplomática, tradicional na família.

Após haver concluído seus estudos em Roma, recebeu do prefeito Probo a missão de ir a Milão como governador da Ligúria e Emília.

Sendo ele governador nessa cidade, morreu o Bispo ariano Ausêncio, entrando a população da cidade em discórdia quanto à escolha de seu sucessor.

Nesses primórdios do cristianismo, os Bispos não eram nomeados pelo Papa, como ocorre atualmente. O costume da época consistia em reunir os Bispos da região, para que eles – conhecendo pessoalmente os sacerdotes das pouco povoadas cidades – elegessem o novo Bispo, que deveria ser o melhor dentre os sacerdotes.

Ambrósio, como era seu dever de ofício na qualidade de governador, foi então à igreja para evitar eventuais tumultos durante a escolha do sucessor de Ausêncio. Como esta se afigurava difícil, foi necessário que o governador dissesse algumas palavras enquanto funcionário público de maior relevo ali presente.

Discorreu ele sobre a paz e o bem do Estado com tanta capacidade de persuasão que, antes de concluir seu discurso, ouviu-se a voz de um menino, que começou a gritar: “Ambrósio Bispo“, sendo acompanhado pelos demais circunstantes. E isso, apesar de ele – segundo costume da época – não haver sido ainda batizado. Ambrósio, porém, recusou-se e resistiu à proposta.

O desejo da população, então, foi apresentado ao Imperador Valentiniano, o qual ficou muito contente com o fato de o Bispo escolhido ser um de seus magistrados. Igualmente alegrou-se o prefeito Probo, pois havia dito, no momento da partida de Ambrósio: “Vai e obra não como juiz, mas como Bispo“.

Correspondendo a vontade do Imperador ao desejo do povo, Ambrósio foi batizado e instruído nos ritos sacros. Após oito dias, a 7 de dezembro de 374, recebeu a sagração episcopal.

Valoroso Bispo em meio à profunda crise

Na época em que Santo Ambrósio foi eleito, não era fácil cumprir devidamente as obrigações episcopais. No Império Romano os pagãos eram ainda numerosos e exerciam muita influência nos costumes da sociedade, apesar de ser esta oficialmente católica.

Dura luta travava-se entre a corrupção pagã e a moralidade cristã. Dependendo de quem vencesse essa disputa naquela época, o mundo consolidar-se-ia no Cristianismo, ou descambaria novamente no paganismo, agravado então pela apostasia.

Os cristãos, apesar de constituírem maioria, estavam divididos em duas facções irreconciliáveis. De um lado, os hereges arianos, majoritários, procuravam obter novos adeptos para seus erros. De outro, os autênticos católicos, defensores da verdadeira fé, que deviam travar simultaneamente um combate interno e externo.

O Santo Bispo, até então dedicado à carreira diplomática, começou a estudar as doutrinas que eram objeto de polêmica. Pois, conforme a posição que assumisse perante tais doutrinas, poderia influenciar ponderavelmente a posição de muitos fiéis.

Ambrósio, esclarecido devidamente por tais estudos, desempenhou-se brilhantemente da tarefa de pastor, combatendo a heresia com firmeza e inteligência.

Perseguido por pregar a virgindade

Uma das primeiras atividades do novo Prelado foi o combate à corrupção moral difundida pelo paganismo.

Ambrósio deu-se conta de que não adiantava apenas difundir a doutrina que proíbe cometer estes ou aqueles pecados. Era preciso propor um modelo de retidão moral à sociedade, apto a lhe despertar o entusiasmo. E o modelo de virtude escolhido por ele foi a virgindade.

Num mundo de costumes ainda paganizados, que bem poderia ter como lema a máxima moderna – “a vida é para divertir-se” -, fazer propaganda da virgindade era combater de frente o escândalo, como, aliás, o é também em nossos dias.

Santo Ambrósio, porém, conhecia o extraordinário poder moralizante da virgindade. Sua irmã mais velha, Marcelina, tinha sido uma das primeiras virgens cristãs de Roma, oficialmente consagradas como tal ao Senhor, continuando a viver em sua casa, embora mais recolhida. O novo Prelado via como a alma de sua irmã aperfeiçoava-se e ia adquirindo virtudes como a bondade, a dedicação, o pudor. Virtudes, aliás, especialmente opostas aos costumes romanos do tempo, em que até as mulheres costumavam assistir sangrentos espetáculos de circo.

Em vista disso, logo começou Ambrósio uma série de pregações a favor da virgindade que foram transcritas, e tornaram-se, posteriormente, famosos tratados sobre o tema, até hoje muito apreciados.

Naturalmente, os adversários do Santo perceberam a meta visada por tal campanha: a formação de uma mentalidade contrária à deles, pois quem ama a da virgindade, odeia a libertinagem. Por isso, moveram-lhe feroz combate.

Santo Ambrósio foi então atacado, sob o pretexto de que suas pregações eram contrárias ao bem público, pois, havendo muitas virgens, poucos seriam os filhos; e assim ele iria despovoar o Império, facilitando desse modo o ataque dos bárbaros, que já haviam iniciado suas investidas.

Curiosamente, os pagãos encontraram um aliado inesperado: as mães das virgens, que vendo suas filhas abandonar o mundo tão estimado por elas, começaram também a afrontar o santo. Acusavam-no de semear a discórdia nas famílias e chegaram não só a proibir que suas filhas assistissem seus sermões, mas até a prendê-las, para evitar que o ardoroso pregador as influenciasse.

Ele mesmo dava-se conta disso e dizia: Sou acusado de pregar a castidade; se é crime, honro-me dele, e confessá-la em voz alta não é prejudicar minha causa, mas servi-la. Vós me chamais de mestre da virgindade, vós me lançais em rosto os prosélitos que para ela reúno. Oxalá houvesse muitas acusações como esta contra mim!

Enfrentou destemidamente todas essas lutas e terminou fazendo da virgindade um modelo de radicalidade católica. Aliás, numa civilização como a nossa – tão preocupada com déficits e carências – uma das maiores carências é a falta de almas virgens, movidas por um grande amor de Deus.

Tragédia: viver num Império decadente

A par da luta a favor da virgindade e contra os hereges, Santo Ambrósio teve que se ocupar com problemas políticos.

O auge do Império romano já havia passado. O povo de Roma estava farto de glória, preferindo apenas gozar a vida. Ora, tal desejo torna o homem imprevidente: ele prefere acreditar numa mentira cômoda do que encarar a dura realidade.

Na ocasião, o Império Romano estava dividido em duas partes, o do Ocidente e o do Oriente, devido à sua extensão e à complexidade dos problemas que apresentava. Graciano era o soberano do Império do Ocidente e Valentiniano do Oriente.

Como os Imperadores, tanto os do Oriente quanto principalmente os do Ocidente, também se entregavam mais ao prazer que ao dever, não previram o perigo que se aproximava, quando grupos de bárbaros pediram licença para cruzar o rio Danúbio (a principal fronteira européia do Império do Ocidente na época). Eles desejavam instalar-se no território imperial, alegando que estavam sendo acossados ao Leste por outros bárbaros mais ferozes.

O Imperador Valentiniano limitou-se a dizer-lhes que podiam cruzar o Danúbio, desde que entregassem as armas. Os bárbaros passaram o rio e entregaram as armas, mas logo as compraram novamente de corruptos funcionários do Império. Estes mesmos funcionários começaram a pressionar os bárbaros para conseguir deles mais dinheiro, ocasionando esta atitude tremenda rebelião, que determinou a derrota das tropas imperiais e a morte do Imperador Valentiniano. Era o começo da derrocada do Império Romano.

Luta incansável contra hereges e pagãos

Santo Ambrósio, percebendo a gravidade da situação, estreitou suas relações com o jovem Imperador do Ocidente, Graciano, com vistas a dar-lhe sábios conselhos. Mas a madrasta do imperador, Justina, favorecedora dos hereges, opôs-se quanto pôde ao salutar influxo do Bispo de Milão.

Nessa luta de influências, mediante a qual se decidia se o Império favoreceria os católicos ou os hereges, Santo Ambrósio acabou prevalecendo, em boa parte graças às suas exposições sobre a verdadeira fé católica enviadas ao Imperador, e que se constituíram depois no famoso Tratado sobre a Fé.

Finalmente, em abril de 380, o Imperador decretou o confisco de todos os locais de culto dos hereges arianos, um golpe muito sério para a heresia. Assim, graças a Santo Ambrósio, a fé católica começava a vencer a terrível luta.

Quando tudo parecia estar em ordem, Graciano foi assassinado, tornando-se Imperador Valentiniano II, filho de Justina.

Os pagãos, furiosos em virtude das medidas salutares tomadas contra eles por Graciano, apoiado por Santo Ambrósio, julgaram ter chegado a hora da vingança. Revelou-se então o Bispo de Milão fino diplomata, apoiando o novo Imperador contra vários generais rebelados devido a problemas políticos. Com isso, conseguiu que Valentiniano II não desse ouvidos às petições dos pagãos, evitando assim que se estabelecesse uma aliança entre estes e os militares.

Entretanto, a mãe do Imperador, Justina, continuava trabalhando a favor dos arianos. Quis ela forçar Santo Ambrósio a ceder uma igreja aos hereges, respondendo ele que não o faria e que estava disposto a morrer mártir, se necessário fosse. Diante desta firmeza os hereges preferiram ceder.

A situação tornou-se tensa. Ocorreu então mais uma reviravolta militar, característica de impérios em decadência. Em decorrência da revolta, Valentiniano II foi obrigado a fugir. O novo Imperador, Teodósio, assumiu uma posição mais favorável aos católicos, o que não impediu, contudo, que Santo Ambrósio várias vezes denunciasse seus desmandos e se opusesse a eles.

A conversão de Santo Agostinho

Muitos católicos têm uma concepção errada do que seja um santo. Acostumados a ver imagens langorosas e adocicadas, acabam julgando que a santidade é fielmente representada por aquelas figuras distorcidas.

Na realidade, santo é o homem que lutou heroicamente contra as más tendências que o pecado original deixou em sua natureza, e até contra deficiências físicas. Assim, Santo Ambrósio tinha má saúde, sua voz era débil, sua estatura, baixa. Mas com a ajuda da graça divina lutou contra seus defeitos físicos, e a tal ponto transcendeu a fraqueza de sua saúde, que conseguiu realizar a ingente obra que legou à posteridade.

Possuía um dom especial para guiar as almas. Santo Agostinho, antes da conversão, procurava-o muitas vezes, a fim de debater com ele complicadíssimos problemas teológicos.

Santo Ambrósio tinha bem presente ser necessário muito tato para conduzir as almas à santidade. E que isso só era possível obter através da graça divina, secundada pelo esforço do homem. Assim, em numerosas ocasiões, deixou Agostinho à sua espera, enquanto lia algum tratado.

Estava convencido de que o problema daquele futuro Doutor da Igreja consistia em renunciar aos prazeres do mundo. E isto, só a graça de Deus conseguiria fazê-lo. Se começasse a discutir com ele só agravaria o problema, sem convencê-lo.

A figura de Santo Ambrósio, porém, de tal maneira marcou Santo Agostinho, que este o menciona mais de 90 vezes em sua famosíssima autobiografia, as Confissões.

Energia, milagres e morte

Dotado de uma índole pura, a energia era marcante em seu caráter. Assim, opôs-se valentemente à Imperatriz Justina que desejava restaurar a estátua de uma deusa. E proibiu o Imperador Teodósio – manchado com sangue inocente – de entrar na Igreja enquanto não fizesse penitência.

Quis Deus recompensar Santo Ambrósio também com o dom dos milagres. No verão de 382, uma mulher paralítica conseguiu tocar em seus paramentos enquanto o Santo celebrava uma missa, tendo sido curada instantaneamente. E no ano de 394 ressuscitou um jovem morto na cidade de Florença, onde se refugiara devido à perseguição de seus inimigos.

Sempre doente, cumpriu seu dever até o fim.

No início de 397, tendo viajado a Pavia para assistir a eleição do Bispo local, voltou alquebrado, sendo obrigado a recolher-se ao leito. Antes de cair enfermo, contudo, havia predito o dia de sua própria morte.

Poucos dias antes de morrer, teve a visão de Nosso Senhor, que, sorridente, convidou-o a vir, até Ele.

Temia-se que, após o falecimento de tão grande Santo, a Itália caísse em ruínas. Assim, seus amigos mais prediletos pediram-lhe que rogasse a Deus pelo prolongamento de sua vida. Eis a resposta do Santo, que tanta admiração causava em Santo Agostinho: Não vivi de tal modo que tenha vergonha de continuar vivendo; mas não tenho medo de morrer, porque temos um Senhor que é bom“.

Onorato, Bispo de Vercelli, chamado três vezes por uma voz divina, acorreu levando-lhe o Corpo Santíssimo do Senhor.

Depois de haver comungado, dispôs Santo Ambrósio seus braços em forma de cruz e entregou sua alma a Deus. Era o dia 4 de abril de 397. Subia aos Céus, repleto de méritos, este Prelado – modelo para os Bispos de todos os tempos – que iria figurar também no firmamento católico como potente estrela, pois foi proclamado Doutor da Igreja.

Reflexão

Seu titulo “Língua de Mel” inicialmente por causa de sua habilidade como pregador e orador, acabou levando a que se usasse abelhas nas iconografias dele, e outros símbolos que indicavam sabedoria. Isto levou a associar seu nome com abelhas, ceras, fabricantes de candelabros, refinarias de cera e apiários.

“Não temo a morte, porque temos um bondoso Senhor” — disse Santo Ambrósio. Sim, temos um Senhor de uma misericórdia ilimitada. Consolem-se com esta verdade aqueles, que durante a vida procuram fazer o bem e servir a Deus com toda a fidelidade. É coisa sabida, que o demônio procura inocular o desânimo nas almas dos fiéis servidores de Deus. A lembrança dos sacrifícios, das orações e das boas obras, a lembrança das confissões bem feitas, pelo contrário, deve enchê-las de ânimo. Com Santo Ambrósio, digam confiadamente: “Nós temos um Senhor muito bondoso”. Nele pus toda a minha confiança e esperança. Não hei de ser confundido”. O exercício da esperança é utilíssimo para aqueles que se vêem tentados pelo desânimo e pelo desespero, quando a consciência lhes dá o testemunho de terem cumprido o dever. “O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem devo, pois temer? O Senhor é o protetor da minha vida, diante de quem temerei? Ainda que exércitos se levantem contra mim, meu coração não temerá. Não aparteis de mim a vossa face! Vós sois meu protetor; não me abandoneis e não me desprezeis, vós, meu Deus e Salvador! (Sl 26.1.3.9) “Por Vós clamei, Senhor. Disse: Vós sois a minha esperança e minha porção na terra dos viventes”. (Sl 141.6) “Coração de Jesus, em vós confio!”

Que Deus se digne de dar à Igreja sempre bispos da têmpera de um Santo Ambrósio, cujo túmulo se vê encimado por três palavras: a do Santo, do Doutor da Igreja, e do Cantor litúrgico. Santo Ambrósio, rogai por nós. Amém!

Fonte:

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/38FAF4A6-3048-560B-1C94B92D5103FF48/mes/Dezembro1997

Grifos Nossos

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