Santa Mônica

Vinte o cinco anos de luta dura e insistente: vinte e cinco anos de provações e de lágrimas são a vida de uma mãe que a vontade fez enérgica, inflexível, enquanto a ternura pelo filho a tornou doce, ponderada, paciente na espera. Mônica não é dessas almas extraordinárias cuja perfeição surpreende e desalenta a fraqueza humana, que com suas virtudes fogem à nossa imitação: filha dócil e humilde, esposa fiel, mãe mui terna, viúva casta e resignada: eis a vida de Mônica, exemplo da mulher cristã.

Infância

No ano de 331, quando o paganismo agonizava em meio de uma floração de homens santos e doutos, no seio de uma família profundamente cristã, surge uma criança privilegiada, escolhida para ser a mãe do maior Doutor da Igreja.

Os primeiros vagidos anunciaram sua missão sobre a terra: sua vida devia ser cheia de dores: a oração e as lágrimas, o seu apostolado: com estas armas triunfará.

Ao nascer lhe foi dado o nome de Mônica (amiga só) nome que nenhuma santa tivera antes dela, e que ela tornaria célebre, santificando-o com uma vida verdadeiramente única, exornada de todas as virtudes, e predicados que formam o ideal mais sublime da mulher cristã.

Mônica veio à luz num ambiente profundamente cristão. Ignora-se o nome do pai; o nome da mãe, Facúndia, nos é dado por tradição. Ambos cristãos piedosíssimos, conservavam intacta a fé apostólica.

No começo do século IV, Tagaste, cidade ao norte da África onde a Santa nasceu, tinha aderido ao cisma de Donato; a família de Mônica, e poucas
outras, resistiram, ficando fiéis à Igreja.

No meio dos revezes de fortuna e das lutas pela fé, os progenitores da Santa se esforçavam por fortalecer-lhe o ânimo, modelando-a desde logo nas virtudes mais sólidas, instalando em sua alma desprezo por tudo que não é eterno e gerando em seu coração aspirações e entusiasmo para as coisas do céu.

Mônica, qual tenra plantinha cultivada com todo esmero pelos pais e por uma serva de casa, cresceu, e bem depressa se viu rica de flores e de frutos.

Como um anjinho, simples e ardente, suspirava pela oração; espreitando o momento oportuno, fugindo à vigilância, ia sozinha à igreja. Recolhida a um canto, com as mãos juntas, a cabeça modestamente inclinada, entretinha-se orando, em doce união com Deus, esquecendo-se — até a hora em que devia estar em casa. Repreendida, algumas vezes castigada pela ausência e pelo atraso, jamais se lamentou e nem por isso abandonou este piedoso costume.

Às vezes, brincando alegremente com as companheiras, fugia-lhes de repente e, escondendo-se no verde das árvores, orava ao Senhor.

Não sabemos o que dizia a Deus naqueles momentos, mas podemos imaginá-lo. O verde dos prados e das árvores, as flores, o canto dos pássaros, tudo naqueles momentos felizes fala de Deus, de suas grandezas. A alma inocente fala com o Senhor, sente-O e Ele lhe dá tais aspirações, e a envolve, tornando a alma feliz.

O amor a Deus, o amor vivo e intenso é vida, é força que impele a agir e também em Mônica foi o principal motor. E Mônica no meio dos sonhos e das alegrias da infância, sabia também ver e compreender a dor, as misérias da humanidade; uma lágrima, uma desventura, um pobre a pedir esmola, tudo repercute e se reflete em seu coração inocente.

Os pobres!… eis um dos seus amores mais característicos. Privar-se na refeição de uma parte de seu alimento, escondê-lo, procurar e esperar na porta da casa um pobre a quem dar às escondidas, era uma de suas astúcias habituais.

Aos 20 anos

A infância de Mônica passou como uma aurora que anuncia um dia mais belo. Coubera-lhe em sorte um caráter excelente; rica de dons naturais e sobrenaturais, servida por uma inteligência penetrante, o próprio Agostinho mais tarde, sem sombra de vaidade, nos dirá que o intelecto da mãe era pouco menos que genial.

Caráter firme e decidido, era de coração muito sensível, mas cheio de energia no amor e no agir. A fé, a piedade, o amor a Deus e aos pobres, a serenidade e o encanto do rosto a tornava uma jovem admirada e amável. Apenas passara da adolescência à juventude, foi pedida em casamento. Parecendo antes predestinada a seguir o exemplo das primeiras virgens cristãs, e numa vida de inocência e candura, foi dada como esposa a um homem que muito pouco se lhe assemelhava.

Patrício é o nome do esposo de Mônica. Fazendo parte da câmara municipal de Tagaste, gozava por isso mesmo de certa distinção; não sendo rico mas antes abastado: é fácil supor que vivesse com a família dos rendimentos de seus haveres.

Agostinho nos conta que tinha um bom coração, mas sua vida era pouco exemplar. Pagão, indiferente pelas coisas de religião pela virtude ou pelo vício, era capaz assim das ações mais torpes como das mais louváveis. De índole rude e violenta, facilmente se zangava e se excedia nos acessos de sua cólera.

Como explicar tal união? Donde veio que duas pessoas de gênio tão diferente, desencontradas na idade, chegaram a unir os seus destinos?

Patrício para ser esposo de Mônica devia ter conhecido a delicadeza, o respeito e o amor cristão: coisas que fazem belo e santo o matrimônio cristão. Ele, ao invés era pagão, de princípios e inclinações contrárias e passava dos quarentas anos, enquanto Mônica só tinha vinte. Diferenças e contrastes estes, capazes de tornar infeliz a vida inteira de dois seres.

Mas, os pais de ambos não pensaram nisso; seguindo o costume daquele tempo, combinaram tudo entre si, e, parecendo-lhes isto conveniente e razoável, decidiram o matrimônio dos filhos.

Patrício concordou indiferente; Mônica, pensando ser aquela a vontade de Deus, depois de muito orar, com grande fé e generosidade, fez o juramento perante o altar e ligou seu amor cristão ao amor pagão de Patrício.

Humanamente não se pode explicar tal união; mas a fé nos mostra que Deus, dirigindo os acontecimentos, dispôs que: “O homem infiel fosse santificado por meio de mulher fiel”.

Em Família

O Matrimônio, nas esperanças dos futuros cônjuges, a princípio é um sonho, mas, como no outono as folhas das árvores caem e são dispersas pelo vento assim se esvaem as ilusões, as miragens e os sonhos na realidade da vida quotidiana de um casamento mal combinado.

Entretanto em uma família em que reinavam superstição pagã e as paixões humanas, onde não só não entrava o raio da fé cristã, mas até a sua sombra era mantida à distância, Mônica achará na vida diária o martírio quotidiano.

Ainda era viva a sogra. Imperiosa, violenta e sobretudo ciumenta: era digna mãe de Patrício. Entretanto Mônica devia viver com ela! As criadas da casa não eram melhores que a patroa.

Patrício ainda que ciumento da esposa, era sempre dominado por tristes e escandalosas fraquezas passionais, muitas vezes se gabava publicamente de seus desregramentos tanto que Agostinho elogiando mais tarde a mãe, dirá que ela tolerou “a infidelidade do esposo”.

Aflita e desgostosa, Mônica, procurava conforto em Deus. Frequentemente por isso saia de casa só ou acompanhada de uma serva para assistir aos ofícios divinos e dar esmolas.

Na véspera das festas mais solenes, passava boa parte da noite na basílica a rezar; todos os domingos ia a algum oratório dedicado a um mártir aí sepultado.

Assim como a virtude contraria o vício, é impossível dizer quanto desagradava a Patrício o caráter e o modo de vida da esposa.

A princípio suportou, depois aborrecido quase se arrependeu de tê-la desposada e disso se lamentou abertamente. Suas orações o aborreciam; as esmolas lhe pareciam excessivas; achava exageradas as visitas que ela fazia aos pobres e aos doentes. Porque tanta compaixão pelos escravos? Porque sair tão assiduamente de casa? Não a compreendia.

Sabia que ela fazia todas aquelas visitas movida pela piedade, longe de procurar um pretexto para o ócio, para uma dissipação ilícita. Todavia, pois que tinha ouvido ditos malignos, e o modo de vida da mulher parecia não impedir suspeitas e tagarelices na família, preocupava-se com isso.

Demais, a mãe de Patrício, depois de falsas informações dadas por algumas criadas maldosas, tinha concebido para com ela os mais desfavoráveis sentimentos: isto aguçava de muito as suspeitas do filho.

Mônica compreendendo a calúnia, redobrava a submissão e humildade, e a força de doçura, de paciência e de terna solicitude, conseguiu acalmar a sogra e convencê-la da própria inocência. Esta se apressou em por a descoberto perante o filho a maldade das criadas e lhe pediu para fazer justiça.

No entanto, Mônica com suas maneiras corteses, com modéstia e com silêncio humilde e discreto que usava quando Patrício chegava ao auge da cólera, revestiu-se a seus olhos de uma beleza que ele antes não tinha percebido; e por fim marcou em sua alma sulco indelével que mais tarde o conduziria à conversão.

Sofria entretanto, e no meio destas tristezas que podiam ser causa de desânimo e abandono, para ligá-lo muito mais a Patrício e alegrar a casa, Deus lhe concedeu ser mãe.

Ainda jovem, podia ter 23 anos, teve o primeiro filho, Agostinho, a cuja vida ligará estreitamente a sua. Agostinho nasceu a 13 de novembro de 354.

O segundo filho foi Navígio. Meigo e silencioso, passara a vida, quase sempre doentio. Fazia bem aos outros mais do que se tratava.

Semelhante à mãe, crescera junto a ela e, enquanto Agostinho será o irresponsável, a causa dos sofrimentos de Mônica, Navígio será para ela o terno e fiel consolador.

Sabemos por tradição que Mônica teve também uma filha, à qual pôs o nome de Perpétua, célebre pela gloriosa mártir cartaginesa.

Esta filha, cresceu, casou-se, ficou viúva e sem filhos. Mais tarde residiu com Agostinho até sua ordenação sacerdotal. Retirando-se por fim a um convento de virgens onde foi eleita superiora, viveu deixando exemplos de virtude pouco comum.

Educação de Agostinho

Se bem que Mônica cumulasse cada filho de desvelos os mais solícitos e tocantes, Agostinho teve carinhosa e especial preferência. Ele nos diz que a mãe depois de lhe haver dado a vida do corpo “o concebeu no seu coração para a vida eterna”.

Crescido em anos e tendo se desenvolvido nele os primeiros germes da razão, Mônica o instruiu nos principais mistérios da religião.

Mostrava-lhe sempre o céu, falava-lhe do amor de Deus, do berço em que nasceu o Salvador e da cruz em que expirou por nosso amor.

Esforçava-se por inspirar no menino desgosto pelo que é finito e perecível, o horror do mal, a aversão por tudo que degrada. Em suma: esforçava-se por esculpir na alma do filho um caráter firme, de formar aquela consciência da qual Agostinho jamais se desfez, e que o seguirá sempre, ainda quando mergulhado no vício, e lhe fará exclamar: “fomos feitos para Ti, ó Senhor, e nosso coração não encontra paz enquanto não repousa em Ti”.

Este caráter, que a mãe formou em Agostinho, o atormentará sem trégua até o dia em que abrandado e vencido pela graça, tornará a pedir a paz e a alegria ao Deus de sua infância, ao Deus de sua mãe.

A primeira infância de Agostinho se passou entre as brincadeiras ruidosas e os caprichos próprios da idade.

Podia ter oito anos, quando um mal repentino interrompeu o ritmo de sua vida. Foi atacado de uma doença de estômago imprevista e violenta. Acreditou-se que ia morrer. “Eu estava sufocado, exclamava ele, e todos desesperavam de minha vida”. Com todo o entusiasmo do coração, com fé ardente, ele mesmo pediu o batismo. A mãe, preocupada unicamente com a salvação eterna do filho, pediu-o à Igreja e procurava fazer-lhe administrar logo.

Tudo estava preparado, quando, contra toda expectativa, a dor cessou e pouco depois Agostinho estava completamente curado.

Mônica tremia pensando em pôr em contato com o mundo um filho de um caráter ardente como Agostinho; por isso decidiu que ele frequentasse a escola em Tagaste, sua cidade natal, afim de tê-lo sempre sob suas vistas.

Nada lhe faltava para ter bom êxito: talento, vivacidade, memória feliz, esplendorosa imaginação. Poderia sem se cansar fazer honra a si e aos mestres. Mas a paixão pelo brinquedo lhe absorvia completamente o pensamento, fazendo perder todo o tempo, e dando ocasião para merecer castigos que ele com razão muito temia.

A escola!… grande preocupação e penosa recordação para Agostinho. Ele já a frequentava antes da doença que quase o levou ao túmulo e agora voltava tristemente como um condenado que vai para o exílio. Em sua imaginação de criança a concebia como cárcere da infância.

Escola e açoite para Agostinho eram inseparáveis e este último lhe amedrontava de tal forma que depois de ter sentido o ardor dos açoites e de ter em vão procurado conforto com a mãe e com as pessoas da família, sentia necessidade de se voltar para o Defensor dos fracos e dos oprimidos e com todo o entusiasmo e força do coração exclamava: — Oh! Meu Deus, fazei que eu nunca mais apanhe na escola!

Mas Deus não atendia e ele ficava desolado com isso.

Averso pelos estudos, Agostinho juntava um orgulho que tendia a se desenvolver. Gostava de sobressair mesmo enganado; sob a capa da timidez escondia a ambição nascente: era o sangue de Patrício que lhe corria quente nas veias. Todavia filho de Mônica, temia a desonra, a virtude lhe era simpática, e mostrava afeto por todos.

Patrício conhecia o filho que apesar da preguiça e negligência, podia sair-se bem e fazer uma carreira brilhante.

Orgulhoso, de tal filho achou que não podia descuidar dele, e pelo contrário devia fazê-lo estudar seriamente: Agostinnho, feito retor ou advogado de fama, seria a honra e o apoio da família. Assim também pensava Mônica.

Com tais esperanças e miragens, embora os negócios não estivessem bons, Patrício se resignou a sacrificar pelo filho quase todas as rendas e de comum acordo com Mônica, decidiu mandá-lo à escola de Madaura.

Era um sacrifício para Patrício; uma separação dolorosa para Mônica. Ela mesma conduziu e deixou Agostinho em Madaura. Depois de aconselhá-lo longamente, pensando nos perigos a que estava sujeito, chorou, mas um pensamento a confortou. A distância que separava Madaura de Tagaste não era grande: podia se reunir a ele, falar-lhe, corrigí-lo.

Ela não imaginava que o vício e o mal dos quais o tinha preservado apenas vira os primeiros germes, transformariam o espírito do filho e produziriam tão profundas feridas.

A maioria da população de Madaura, gente aristocrática, era pagã e corrupta; muito frequentes aos festins e as orgias em honra dos deuses; o ensino ministrado nas escolas era pagão; liam-se e comentavam-se poemas inconvenientes, lendas saturadas de imoralidade nas quais o vício ao vivo, era louvado e exaltado; a virtude espezinhada e ridicularizada, o leitor incitado aos maus costumes.

Agostinho não se pôde subtrair à influência maléfica de tantos elementos corruptos e nós o vemos nos primeiros anos de escola, longe da mãe, distanciar-se cada vez mais do cristianismo, entregar-se a prazeres ilícitos, chorar de emoção, de alegria ou de dor a propósito de páginas que manchavam sua inocência e que ele, renovando o gesto do apóstolo Paulo em Éfeso, devia ter encinerado, ou pelo menos jogado para longe.

Madaura foi a ruina de Agostinho: ruina insensível no começo, mas desastrosa nos efeitos. A miúdo o mundo atrai a si um jovem, conquista-o, abandonando-o depois com o remorso no coração, triste herança do pecado.

Conversão de Patrício

Notou Mônica a transformação do filho? Podemos imaginá-lo. Mas ainda desta vez Deus lhe proporcionou um pequeno bálsamo para aquela primeira desilusão que experimentou com Agostinho, seja para abrandar-lhe a dor, seja para recompensar-lhe a vida exemplar: Patrício deu um primeiro passo para o cristianismo, inscrevendo-se no catecumenato católico.

Isso era uma vitória da doçura e da paciência de Mônica; em efeito do contacto contínuo com a esposa; ela falara pouco, amara muito e pedira sempre ao Senhor pelo marido, e agora Deus a premiava, permitindo que, enquanto Agostinho cristão, se distanciava cada vez mais da fé, Patrício, pagão, abjurasse o paganismo.

Ainda longe do ideal da perfeição cristã, começava agora a amar a virtude, a odiar o vício e o erro; este era o primeiro e mais importante passo para Deus, num homem tal como Patrício.

 Primeiras lágrimas

Voltando a Tagaste, as escolas de Madaura não tinham mais nada a ensinar ao filho de Patrício, Agostinho não recebeu impressão salutar nenhuma do ambiente de família: a conversão do pai, a virtude aprimorada da mãe não o faziam refletir e nem lhe estimulavam bons propósitos. Vivia na ociosidade aos 16 anos, com a mente cheia de pensamentos pecaminosos, a imaginação ardendo em fantasias ilícitas: descuidado de todo o dever espiritual em uma atitude de altivo desprezo, em face dos mais graves perigos ao encontro dos quais andava. Em vez de se recolher e transbordar todo o seu amor no único Amor, ele se desgarrava em uma multidão de afeições baixas; em vez de corrigir-se, escondia as faltas e enganava a mãe.

As informações lhe vieram de Patrício. A boa mãe se desiludiu e compreendeu que o seu Agostinho não era mais como ela pensava; mas reconhecia nele o filho que tinha contraído por triste herança o patrimônio de Patrício. “Minha mãe, disse Agostinho, tinha aprimorado a piedade. E por isso sentiu-se perturbada por uma emoção toda cristã ao pensar nos perigos que lhe deviam ameaçar”. Emoção que a fez esquecer o brilho e o bom êxito e preferir-lhes a inocência e a virtude do filho. Não cessava por isso de admoestá-lo, e atraí-lo de novo com idéias salutares.

Que fruto colhia Agostinho dessas advertências? Nenhum. O lazer em que vivia e a crise que lhe atormentava o espírito só podiam dar funestos resultados. Agostinho se transformava num jovem sensual e libertino. Passava as noites nas ruas e nas praças, a se divertir, a vadiar diante de uma taça de refresco; cingia a fronte com uma grinalda de parras e punha cravos da índia nas orelhas; era o verdadeiro tipo do jovem inexperiente que descuidado de tudo e de todos exclamava:

— Gozemos enquanto jovens, coroemo-nos!… Levado pelo seu caráter e pelas suas paixões devia rebaixar-se até o último grau. Mônica o repreendia e chorava: não achando palavras adequadas pedia a Deus que guardasse e salvasse a virtude de um filho que ela não sabia preservar do vício.

Orgulhoso também no mal Agostinho ouvia os conselhos da mãe como se fosse de uma pobre mulherzinha com que coraria de se mostrar dócil. Mais tarde, arrepender-se-á e com os olhos marejados de lágrimas, exclamará: “E tu calavas, oh! Deus!”

Em Cartago a queda fatal

Ocioso em Tagaste, sem incômodos nem preocupações Agostinho se achava a seu gosto. Por ora só pensava em se divertir a ponto de esquecer os sonhos e as esperanças do seu porvir.

O que é o futuro? O homem, pensava Agostinho, prepara o próprio destino, mas frequentes vezes este não está nas nossas mãos: são sonhos, são esperanças capazes de entusiasmar mas que no momento não se podem gozar. A juventude, ao contrário, era o presente, vivia-a e queria vivê-la despreocupadamente com todas as alegrias que oferece e necessariamente com todas as surpresas e ilusões, por vezes muito desagradáveis que nela se encontram.

Outros pensamentos nutriam Patrício e Mônica: o primeiro não pensava senão no êxito do filho; Mônica porém estava mais preocupada com o futuro espiritual, e ambos bem que com fins diversos pensavam em ocupá-lo em alguma coisa útil. Patrício especialmente se esforçou por juntar dinheiro necessário para completar os estudos do filho em Cartago. Mas por fim convenceu-se de que a sua bolsa de pequeno proprietário não era suficiente.

Completada a soma necessária com o auxílio de um nobre cidadão, Komaniano, a quem Agostinho ficará sempre especialmente grato determinou mandá-lo a Cartago.

Mônica pensando nos perigos, bem mais graves do que os de Madaura a mercê dos quais o filho ficaria numa cidade cosmopolita e muito corrupta, inquietava-se e a sua consciência de cristã não a impeliria jamais para aquela resolução.

Patrício insistia na partida. Foi preciso que Mônica se resignasse e no outono de 370, ao abrir-se o ano escolar, ela ainda uma vez o conduziu sossegando com o pensamento que os grandes estudos desviariam o filho das paixões que então o perturbavam.

Pobre mãe, destinada a experimentar ainda uma vez a amargura da desilusão. Agostinho ficaria só; sedento de verdade, de prazeres, com o coração cheio de esperanças e de desejos ardentes o que se tornaria naquela grande cidade?

Cartago que surpreendeu Agostinho e proveu às suas necessidades intelectuais foi a cidade que o prostrou moralmente e que crivou a sua alma de feridas mortais.

Só, sem guia, numa cidade em que o cristianismo era combatido pelo paganismo, que ainda dominava com espetáculos e ritos imorais, será vítima de seus desejos carnais. Ele mesmo nos diz que não amava ainda, mas gostava de amar, amar e ser amado. Vazio de Deus o seu coração procurava um objeto.

Achou-o, amou-o e foi amado.

“Caí, diz ele, caí nos laços nos quais tanto desejava ficar preso. Amei e fui amado. Mas com quantas amarguras, oh! meu Deus, foi temperado aquele prazer pela vossa bondade!” Quem fosse a companheira de seu pecado que escravizou seu coração por uns 15 anos e que o acompanhou por toda a parte e enfim, convertida, o deixou com lágrimas nos olhos, nós o ignoramos:  sabemos porém que era cristã.

Dessa união ilegítima Agostinho teve um filho a que pôs o nome de Adeodato.

Morte de Patrício

Já vimos como Patrício vencido pela virtude da esposa deu um primeiro passo para a religião e para a verdade, da qual se aproximava, mas visivelmente.

Santo Agostinho afirma que a conversão do pai se obteve pelas orações e pelas lágrimas de Mônica. Por outro lado vimos como o fito da esposa era o sacrifício contínuo para sua conversão, como respondia com toda a paciência, doçura e amor à cólera e à indiferença dele.

Tudo isto tinha formado em volta de Patrício um ambiente no qual, o seu malgrado, respirava a fé mais pura. Quando a virtude e a verdade se encarnam em toda a beleza e poder divino, em uma criatura exercem uma fascinação tão forte e suave que a ela não se pode resistir, ou se foge ou se cede.

Patrício, para sua felicidade, não fugiu: as suas paixões foram mais fracas que a virtude da mulher por isso cedeu: embora não notasse tão profunda transformação, sua conduta se aperfeiçoava dia a dia.

Chegou assim até mais ou menos 60 anos de idade, precisamente no ano de 371.

Sentindo-se gravemente enfermo e vendo aproximar-se o fim de seus dias, pediu o batismo com o amor, próprio dos que se transviaram e se emendaram.

Pouco tempo depois de havê-lo recebido, morreu, assistido por aquele anjo de mulher que Deus lhe tinha dado para ser o instrumento de sua salvação eterna.

Foi esta uma das alegrias mais puras que o Senhor enviou a Mônica a fortalecer-lhe o ânimo para uma luta mais longa, mais forte e para mostrar-lhe a coroa de uma vitória mais gloriosa que ela obteria com a constância e a fé inabalável de quem é sustentado pela mão poderosa do Altíssimo.

Viúva exemplar

Neste ponto da existência, Mônica se mostrou cheia de bom senso e de firme virtude, mas o seu espírito sentia ainda o vácuo que nos deixam as pessoas.

Um vínculo ainda a prendia demais às criaturas e isso a impedia de voar: Deus o quebra e ela ficou livre para subir ao pináculo da perfeição. Morto o consorte, profundamente sentida, resignou-se com grande dificuldade: agora que Patrício professava a mesma fé, poderia viver com ela numa harmonia mais completa de idéias e de ações. Desejaria vê-lo a seu lado, viver com ele os últimos dias, na paz e na tranquilidade doméstica.

Ao invés, Deus desfaz os seus planos: foi forçoso se resignar.

Por outro lado pensando na fragilidade humana e particularmente de Patrício, na possibilidade de recair nos erros e nos vícios, compreendeu a misericórdia divina e de coração agradecia ao Senhor pela morte cristã do esposo.

Este falecimento para Mônica foi uma graça de Deus que ela aproveitou. De fato o seu amor tomou um impulso maior; suas aspirações não achando mais empecilhos puderam elevar-se sublimes e dentro em pouco alcançou uma santidade eminente. O filho em suas “Confissões” nos diz que à austeridade habitual da vida interior, Mônica havia juntado um singular fervor de fé: obediência à Igreja, assídua aos ofícios divinos da basílica, que frequentava duas vezes ao dia, pontual nas horas de orações e de prédica era um exemplo para as cristãs de Tagaste.

Possuía fé muito viva na Providencia: entregou-se-lhe a si própria como também os negócios de família para dedicar-se quase exclusivamente a reconduzir ao seio da Igreja o transviado Agostinho.

Preocupações e dificuldades

Absorvido e preocupado com os estudos, Agostinho deixará no esquecimento a memória daquele que com tantos sacrifícios lhe tinha proporcionado meios de empreender e continuar os estudos.

O estudante de Cartago obtivera entretanto um brilhante êxito, superava a expectativa dos pais, e por ter plenamente correspondido ao desejo deles, julgava-se dispensado da obrigação do reconhecimento.

Estudava e explicava aos condiscípulos, os livros dos maiores filósofos, matemáticos, e músicos. De estatura mediana, de temperamento delicado e nervoso, podia-se predizer que Agostinho teria a visão límpida e o vôo altíssimo da águia: nenhuma luz o deslumbraria, nenhum cimo o haveria de atemorizar. Sentia com energia o estímulo das honras e estava decidido a procurá-las.

Mônica conhecia profundamente o filho, seus dotes não a ensoberbeceram, mas fizeram-na consciente de mais altos deveres, de maiores responsabilidades.

Cheia de temores e quase horrorizada, seguia passo a passo os progressos do filho na ciência; conhecia seus desregramentos morais, a sua convicção era forte de que a ciência, somente a ciência, reconduziria tal espírito a Deus. Por isso, chegada a ocasião de decidir se mandaria chamar o filho ou se o faria prosseguir nos estudos, decidiu impor-se os maiores sacrifícios para continuar a mantê-lo em Cartago.

O maniqueu

Achamos a miúdo na vida do estudante de Cartago trechos maravilhosos: mergulhado no vício, lisonjeado, cheio de si mesmo, todavia ele experimenta como nosso coração não acha paz, senão quando repousa em Deus e na verdade que só dele pode vir.

A leitura de um livro de Cícero Hortênsio, o abalou profundamente e, desde o princípio, julgou ter achado o que buscava. Seu engenho agudo compreendia, e com toda a profundeza, que “a alma quanto menos transviada e contaminada pelos erros e pelas paixões humanas, tanto mais lhe será fácil elevar-se ao céu”.

Libertar-se de tudo que na natureza está viciado, dedicar toda a vida à sabedoria, tender com todas as forças à contemplação da divindade seria aqui na terra viver vida mais divina do que humana. Era um ideal mui nobre; tantos filósofos pagãos o tentaram, Agostinho mesmo se sentia fascinado por ele, mas quem lhe dará asas de pomba para poder levantar tão sublime vôo?

Só o cristianismo!

Compreendendo as falhas da filosofia pagã, voltou-se novamente por pouco tempo ao cristianismo, dedicando-se à leitura da Bíblia.

O estilo chão e simples o surpreendeu, a moral não era segundo as suas aspirações e depressa virou as costas também à Bíblia, procurando em outro lugar uma verdade que satisfizesse aos próprios desejos e ao mesmo tempo desculpasse as suas desordens.

Irrequieto e sequioso, procurou a verdade em todas as igrejas e em todas as seitas em que se pode achar o nome de Cristo, porém não a sua cruz; a verdade que ilumina, com os raios do Evangelho, mas sem exigir-lhe os sacrifícios; assim entrou na seita dos Maniqueus, hereges, carnais, orgulhosos e embusteiros. Em todos os seus discursos ocorriam os nomes adoráveis de Jesus e do Espírito Santo, mas em lugar deles não havia em realidade senão palavras vãs.

Mergulhados na mentira e nos erros mais grosseiros a respeito de Deus e da natureza do bem e do mal, andavam gritando aos quatro ventos: Verdade, verdade! como se dela, tivessem o monopólio e dela fossem os depositários.

A verdade! Grande coisa! e Agostinho que justamente a procurava com todo o ardor de sua inteligência, correu às cátedras daqueles tagarelas para aprender a verdade infalível por eles tão clamorosamente pregada.

Mas naquela escola, que conciliava as tendências religiosas com seus desregramentos, tornou-se malicioso e sob todos os aspectos pior que antes.

Severidade admirável

Seduzido por estas astutas raposas, Agostinho caiu na cilada da sua turva doutrina, tecida de fábulas grosseiras e absurdas. Renunciou à fé de sua infância, inscrevendo-se na seita como “ouvinte” e aí permaneceu durante 9 anos, induzindo muitos espíritos no mesmo erro: Romaniano e Alípio foram as primeiras vítimas de seu satânico apostolado.

Mônica teve disso conhecimento pois alguém se lamentou. Ela acompanhou sempre com olhar vigilante o espírito irrequieto do filho; conhecia os seus desregramentos, mas nunca suspeitara que chegasse ao ponto de renegar a fé.

A seu malgrado, devia convencer-se. As repetidas referências à obstinação e ao zelo realmente descabido do filho, que lhe faziam as desoladas famílias de Romaniano e de Alípio, acabaram por convencê-la.

Como descrever a dor e as lágrimas da Santa? E um sofrimento de natureza especial, que os que não amam a Deus como Mônica e não lhe experimentaram a amargura, não sabem nem de longe imaginar.

Agostinho mesmo, que foi a causa de tudo, convertido e já bispo, tentou descrever, mas não achou palavras e nem comparações: ela estava petrificada e chorava mais amargamente a morte espiritual do filho do que choraria a morte corporal.

Mas não se contentou de chorar; sentia-se ainda corajosa e forte; mantinha ainda quase intactas para a grande luta as forças que Deus dera e sempre dá a todas as mães para a salvação dos filhos.

Agostinho, ao se fazer apóstolo dos maniqueus, estava em Cartago estudando. Chegado o tempo das férias, obstinado apóstata voltou a Tagaste. A mãe o esperava. O acolhimento que estava preparando ao filho, não lhe devia de certo agradar.

Em família, Mônica quis assegurar-se de sua fé e das tristes relações com a infeliz mulher a quem já nos referimos. Melindrado, o jovem mestre apenas saído das escolas de Cartago respondeu com firmeza e desdenhosa altivez de herege, glorificando-se de ser maniqueu.

Mônica pediu, suplicou, renunciasse à heresia, impôs-lhe romper com as ligações ilícitas. Agostinho, irritado talvez pelas repreensões e obstinado no mal respondeu-lhe com sarcasmo. Era o cúmulo. Atingida na fé e na ternura maternal, horrorizada, levantou-se indignada; com gesto imperioso e terrível, único talvez na história dos santos, expulsou-o de casa.

Passou-se algum tempo; Agostinho na casa de Romaniano tinha tudo que desejava e vivia feliz. A morte repentina de um amigo dileto perturbou-lhe a felicidade e o amargurou a ponto de parecer que devia morrer. Aquela vida leviana se lhe tornou insuportável.

Aconselhado por amigos a deixar Tagaste, muito cheio de recordações do amigo, e a voltar a Cartago não tardou em aceitar-lhes a sugestão.

A mãe, sem dúvida, tratou de por obstáculos a essa resolução. Tudo foi inútil: Agostinho procurou explicar-lhe que era necessário mudar de ambiente, que em Tagaste não podia mais viver e que além disso, tinha já atingido a maioridade: era livre e partiu.

Devemos porém dizer que a estadia na metrópole africana não o satisfez; Agostinho não estava satisfeito de receber tão pouca renumeração pela sua palavra. Demais, a irreverência dos estudantes cartagineses era mais que gracejo e ele se aborrecia com isso. O desejo de paga mais generosa, de esplêndidas honrarias decidiram-no a deixar Cartago para tentar fortuna em Roma.

Escreveu à mãe contando-lhe sua decisão.

Mônica ficou alarmada e cheia de dor.

Pelos fins do século IV, Roma podia ser tudo menos cristã. Nela o paganismo se refugiara e achara o baluarte mais poderoso; numerosíssimos os teatros imorais, as danças pecaminosas, as vigílias, os festins… era a fonte do maus costumes.

Em suma: Roma se apresentava ao espírito de Mônica como a Babilônia daquele tempo. Quantos perigos encontraria lá o seu Agostinho! Ele era o seu amor na terra, queria tê-lo perto para reconduzi-lo à fé e Roma lho roubava para fazê-lo pagão!

Por estes pensamentos que vinham à mente decidiu que Agostinho ou não partiria ou que ela iria com ele.

Procurou-o, jogou-se ao seu pescoço e lhe suplicou que não partisse.

Agostinho já tinha determinado o dia da partida e, vendo a mãe acabrunhada e lacrimosa, lutou por muito tempo contra o próprio afeto; o amor que sentia ainda pela mãe era forte, estava prestes a ceder; quase lhe prometeu não partir. Mas por fim, usando de astúcia e sufocando o amor que o atormentava, mentiu ainda uma vez à mãe, para iludir a vigilância e partir. Mônica percebeu e por isso não o deixava um instante. Agostinho ficou perturbado, porém, não ousou dizer-lhe claramente que queria ir só; a noite lhe veio em socorro.

A embarcação que devia levar o fugitivo para a Itália, esperando vento propício, não dava sinal de saída. O sol há pouco se tinha posto. As primeiras sombras da noite começavam a cobrir a terra e a obscurecer o horizonte.

Mônica, fatigada da viagem e das emoções, mostrava grande esgotamento. Agostinho, vendo-a assim astuciosamente aconselhou-a a descansar em uma capelazinha dedicada à memória de São Cipriano, próxima da praia. Ela, depois de muito hesitar, depois de ter renovado as recomendações consentiu, levada nisto também pela grande devoção e por uma fé ilimitada no ilustre mártir cartaginês. Chegando à capela desafogou o coração, orando longamente, até que exausta, sentindo falharem as forças, adormeceu.

Enquanto ela dormia, Agostinho oprimido por negros pensamentos entrou na embarcação. Ao amanhecer soprou o vento, enfunaram-se as velas, e a embarcação distanciou da praia, conduzindo para terras desconhecidas “o filho de tantas lágrimas”.

O primeiro pensamento de Mônica, apenas despertada, foi rever o filho. Saindo da capela encontrou a praia deserta; o navio há tempo levantara ferro e partira; Mônica não tardou em compreender que Agostinho embarcara. A dor vivíssima a deixou como louca; errou pela praia chorando alto, recriminando a falsidade do filho; e aí, com gesto desesperado, fixando o olhar no azul do mar, queria descobrí-lo e juntar-se a ele, mas em vão.

Cansada de chorar e privada de forças, não achando meio algum para seguí-lo logo, voltou a Tagaste para preparar-se e ir-lhe ao encontro o mais depressa possível.

Estadia em Milão

Chegando a Roma, Agostinho achou hospitalidade na casa de um maniqueu. Depois de uma doença, que pôs em perigo sua existência, abriu uma escola, mas após um ano de residência na sede do Império, abandonou-a para transportar-se a Milão, onde obtivera uma cátedra de retórica.

O fato não nos surpreende: como Cartago assim também em Roma, ele experimentou as desilusões das grandes metrópoles. Se os estudantes cartagineses eram indisciplinados, os de Roma eram velhacos: seguiam as lições do mestre, mas chegado o momento de pagá-lo, o abandonavam.

Agostinho não se acomodou nem com uns e nem com outros: por isso voluntariamente abandonou Roma, onde a sorte e a paga eram incertas, para se transportar a Milão, estimulado pela miragem de um estipêndio amplo e seguro que o governo daquela cidade lhe oferecia. De fato, Simaco, o prefeito da cidade de Roma, a quem haviam pedido um retor para Milão, residência habitual da corte imperial, tendo ouvido falar no jovem africano, chamou-o e ouvindo-o discorrer, lhe ofereceu aquele cargo.

Em Milão fez fortuna: a sua foi verdadeiramente “uma carreira brilhante”.

Seguiu-o uma legião numerosa de amigos e de estudantes africanos, atraídos, como acontece em circunstâncias semelhantes ainda em nossos dias, pela fortuna e pela proteção que lhes podia advir de um amigo e compatriota tão considerado.

Agostinho, instalando-se melhor, logo que lhe foi possível chamou a desventurada mulher que por ele esquecera Deus e por quem ele abandonara o mesmo Deus. Esta veio e trouxe o filho de seu pecado, Adeodato, já grandinho. Não estavam ainda as coisas arranjadas, eis que na desordem da mudança, surgiu Mônica com Navígio, irmão de Agostinho.

A vinda da mãe o desconcertou: nunca pensava, que ela fosse ao encalço.

Embarcando, como é provável, no porto onde chorara a partida do filho, pedira a Deus a graça de revê-lo, consolá-lo e convertê-lo. Desta vez o Senhor devia atendê-la nos desejos e nas súplicas, para premiá-la pela constância, pela obstinação quase de todos os sacrifícios que o coração lhe tinha sugerido e que o amor materno havia feito suportar.

Durante a viagem, uma tempestade apanhou o navio. O vento e as ondas ameaçavam: o perigo era sério. Marinheiros e passageiros, cheios de terror não escondiam a angústia e o desânimo: a desesperança de salvação se tinha apoderado- de todos.

Mônica só não tremia: embora esgotada pela fadiga da viagem, permanecia de pé no navio e com profética clarividência confortava todos dizendo: “Chegaremos ao porto sãos e salvos”.

Como pensaria em morrer sem reconduzir o filho à fé? Tinha uma visão clara da missão que lhe competia. Deus, que lhe dava tal inspiração, não podia iludí-la. Com efeito, acalmados os ventos, clareado o tempo, não custaram a ver as costas da Itália.

Desembarcando, como é provável, em Hóstia, voou para Roma e daí para Milão, onde encontrou o seu Agostinho.

Este não tinha chegado ainda à verdade, mas já em Roma tinha compreendido a vacuidade do maniqueísmo. Depois em Milão, ouvida a palavra de Ambrósio, saíra completamente dos erros dos maniqueus sem porém entrar na Igreja Católica. Antes de entrar na verdade importa despojar-se dos preconceitos e dos erros; Agostinho o havia feito: era o primeiro passo.

A notícia desta transformação foi a primeira que Mônica teve ao chegar. Por isso ela ficou algum tanto consolada mas a nova não a satisfez completamente: ela pedira mais do que isso ao Senhor e disse ao filho que antes de morrer queria vê-lo fervoroso católico.

Santo Ambrósio

Um dos mais decisivos agentes da conversão de Agostinho, depois de Mônica, foi Santo Ambrósio.

Nobre de nascimento, tinha passado a juventude no meio de estudos e trabalhos. Governou, com título de cônsul, as províncias de Emília e de Ligúria. Chegando a Milão para acalmar a exaltação de dois partidos formados para a eleição do Bispo, a eloquência com que falava ao povo para mantê-lo em paz e a fama da honestidade de sua vida, lhe atraíram o olhar dos milaneses.

Por toda a parte — pacificava, abrandava os pecadores, resistia aos hereges, e triunfava nas discussões com os pagãos; chegou até a fechar as portas da catedral ao imperador Teodósio manchado do sangue dos cidadãos de Tessalônica, que ele tinha feito massacrar por ocasião de uma revolta.

Agostinho fez logo que chegou a Milão uma visita a Ambrósio. Foi apenas uma visita de conveniência e nada mais: as crenças e a religião não tiveram importância neste caso. Mas desde então Agostinho se afeiçoou a ele: a gentileza e a benevolência com que foi acolhido o conquistaram.

A palavra forte e eloquente de Ambrósio atraía o povo e um público numerosíssimo sedento de verdade e de luz, enchia a catedral.

Agostinho também foi. Enlevou-se a princípio pela forma da palavra: não cuidava da substância, desdenhando-a mesmo; nada lhe importava mais do que a arte de falar; entregou se depois com infinito prazer àquela palavra doce, elegante sublime que como afiada espada lhe penetrou no âmago do coração sem que ele temesse, pois a julgava incapaz de produzir uma transformação na sua conduta.

Chegada a Milão, o primeiro pensamento de Mônica, depois de Agostinho, foi de visitar o bispo do lugar. Este era para ela, o apóstolo destinado pela providência a reconduzir o filho ao bom caminho. Procurou-o. Para nós é uma cena indescritível Ambrósio recebeu a mãe do retor visivelmente comovido; ouviu-a contar a vida, o motivo da visita e não se cansava de admirar aquela mãe que trazia na fisionomia sinais das lágrimas derramadas pelo filho. Como para nós, para ele aquela mãe era um exemplo sublime de amor materno.

Recebeu uma impressão indelével. Todas as vezes que se encontrava com Agostinho e lhe falava, era para elogiar a piedade da mãe. Agostinho o sabia e por isso começou a se enfadar; esperava ao menos algumas vezes, lhe falasse de sua carreira, lhe referisse o que se dizia dele, aquilo que ele pensava a respeito; em suma, esperava do bispo uma palavra de homenagem; nunca a teve: a glória com a sombra, lhe fugia.

Mônica, por seu lado, cheia de delicada gratidão não cessava de agradecer a Ambrósio pelo bem já feito ao filho através de sua palavra eloquente, de pedir-lhe a opinião, de confiar-lhe as próprias dúvidas e pressentimentos. Procurou ainda fazer mais frequentes os colóquios do filho com o bispo; iam juntos visitá-lo, às vezes o mandava com fúteis pretextos, estreitando assim as relações entre o bispo e o filho e fazendo-os cada vez mais íntimo.

Frequentava assiduamente os sermões de Ambrósio na catedral e tirava frutos maravilhosos de suas palavras. Sob sua direção tornava-se dia a dia mais humilde e recolhida e foi nesse tempo que sua alma acabou de amadurecer para o céu: antes caminhava com grande fervor no caminho da santidade, mas agora corria, se não voava. Já não era a viúva de Patrício, e sim Mônica, a santa.

Nas prédicas de Ambrósio, Agostinho começou a apreciar a religião cristã; acabaram por cair os falsos preconceitos a seu respeito e ele se sentia atraído; não obstante, levado ora de um lado, ora de outro, não se resolvia nunca a abraçá-la.

Em luta encarniçada contra si mesmo, compreendia a importância daquela resolução; não se tratava de escolher entre o catolicismo ou o maniqueísmo, entre um filósofo ou outro, mas de decidir entre uma existência mundana e o mundo divino; entre a vida e a morte; a escolha dependia de sua vontade.

Via o melhor, chorava e se retirava: era ainda fraco, incapaz de vencer-se a si mesmo. Por que? Por que as paixões o dominavam. Agostinho não era puro e como sabemos há cerca de 15 anos estava preso a um amor pecaminoso; sua vontade por isso não era livre; para sê-lo, devia vencer as paixões, as velhas amigas que patroneavam em sua casa.

Mônica compreendeu o estado de espírito do filho, intensificou as orações e os conselhos. Mas enfim pensou que precisava agir energicamente e afastar a mulher que era o obstáculo para a conversão de Agostinho; ela era a cadeia que o prendia à culpa: precisava libertar o filho, quebrando os laços.

Convencida de que exatamente isto era o seu dever, não teve paz senão quando viu desmanchada aquela união culposa. Agostinho por fim, depois de muita insistência, e para remover a causa do aborrecimento da mãe, se desfez da ligação. Foi um verdadeiro drama, causou-lhe sofrimento indizível, é natural, mas ambos fizeram o sacrifício com generosidade.

A conversão

Agostinho agora se humilhara, afastara o obstáculo à sua conversão e poderia tornar-se logo cristão, mas lhe faltava coragem para vencer as paixões.

Esforçava-se por superá-las, mas sentia-se sumamente desanimado. Um pensamento o assaltava: ainda que começasse a cortar todas as relações, não resistiria, não perseveraria.

Agostinho em luta consigo mesmo, se joga no chão em baixo de uma figueira e aí começa a agonia do homem velho. Chorava amargamente e entre soluços, sob a pressão da graça, exclamava: “Até quando, Senhor, até quando ficarás irado contra mim?”

Seus pecados porém, muito caros não o deixavam: voltando-se para eles com gesto desesperado insistia: “Até quando, até quando? Talvez amanhã? porque não agora? Por que não acabar de súbito, já e para sempre com as minhas torpezas?”

Enquanto chorava e lutava com a própria fraqueza, da casa vizinha uma voz infantil chegou a ele e lhe repetiu:

— Toma e lê, toma e lê.

Impressionado, parou um instante a luta, tentando descobrir o que poderia ser: uma cantiga, um jogo de meninos?…

Ainda não tinha ouvido semelhante coisa. Compreende: a ordem vem do céu. Para de chorar, corre para seu amigo Alípio, pega as epístolas de São Paulo, abre-as ao acaso e, com os olhos ainda marejados de lágrimas, lê as palavras do Apóstolo: “Não vivais na crápula, e na embriaguez, na torpeza e na impudência… Mas revestí-vos de Nosso Senhor Jesus Cristo e não corrais atrás das exigências dos sentidos”.

Não leu mais nada. Aquele versículo tão providencialmente apropriado para ele lhe foi suficiente. A luta interna parou, e agora, mudado, uma grande paz lhe inundava a alma: tinha vencido!…

Narrou a Alípio o que experimentara e ambos correm para Mônica para lhe anunciar a Boa Nova. Agostinho se jogou nos seus braços; mãe e filho se apertaram num abraço mudo, porém mais eloquente que qualquer palavra, abraço desejado há tanto tempo e que devolveu o filho a Mônica, como quando o abraçava criança na mesma fé e no mesmo amor.

Mônica chorou ainda uma vez, mas agora de alegria e de triunfo. A visão se tornara realidade: “Aí onde estou, tu estarás”. O seu Agostinho está verdadeiramente na mesma regra de fé e ela podia cantar ao Senhor um hino de ação de graças; sua missão estava cumprida: agora podia esperar o prêmio das orações e das lágrimas derramadas pelo filho.

Agostinho, desfeito dos laços que ainda o prendiam à vida tumultuosa de Milão, tratou de se isolar.

Foi Mônica que o conduziu impelida pelo desejo de preparar a alma do filho para o batismo.

Verdadeiramente Agostinho sentia necessidade disso: sua vida tinha sido até então vazia, desordenada e culposa; só a solidão e o silêncio a reparariam e levariam à plena maturidade a obra da graça já empreendida no horto.

Romaniano, de quem já falamos, foi quem ainda uma vez cuidou da manutenção; um amigo e colega do ensino do retor, Verecondo proveu à hospedagem, emprestando-lhe a própria vila em Cassiciaco. Agora tudo estava pronto; o lugar era excelente, moradia e sustento assegurados.

Terminado o ano escolar, num belo dia de outubro, Agostinho com a mãe, o irmão e alguns dos discípulos mais afeiçoados se dirigiram para o novo domicílio.

Não se pode dizer quão feliz correu aquela época da vida para Mônica e Agostinho: longe de todos e sem grandes importunações, nada faltava daquilo que importa para reconstruir o ideal de uma vida.

Cada um atende às próprias necessidades: Agostinho é o chefe da família, o administrador dos bens anexos à casa de campo; Mônica é a dona de casa ocupada nos afazeres domésticos e na oração, como a mais simples das mães; os mais da comitiva são estudantes sob a direção de Agostinho: compõe versos, passam o tempo em disputas das quais todos participam, até Adeodato e mesmo Mônica.

Foi justamente nessas disputas familiares que ela manifestou o gênio, o entendimento que comunicara ao filho. Atendendo aos seus imperativos, não participava sempre das contendas; convidada a tomar parte nelas, em sua modéstia, se admirava daquela honra e gracejava o propósito.

Uma vez Agostinho, a arrasta quase a força, e lhe diz:

— “Mãe, não amas talvez a verdade? Então porque eu haveria de corar, de dar-te um lugar entre nós? Tens para com a verdade um amor maior do que por mim, e eu sei com que amor me amas!… Nada te, poderia separar da verdade. Não é este o sumo grau da filosofia?”

Para Agostinho como para nós, verdade e filosofia se equivalem e ele não hesita em se declarar discípulo daquela que mais do que ele amava a verdade e que por ela dera até a vida.

“Como cervo na Fonte!”

Compondo poesias e discutindo, meditando a Bíblia e rezando passaram cerca de seis meses no retiro de Cassiciaco, em contato com a natureza virgem que nos alegra e nos faz bons.

Para Agostinho a volta à natureza não foi inútil. Recebeu um como que batismo antecipado, cuidando em lavar a alma, de toda a mácula e torpeza, em purificar o intelecto dos erros que tinha quase encarnados.

Um ardentíssimo amor a Deus abrasou seu coração e exclamava: “Oh! beleza antiga e sempre nova, muito tarde te conheci, muito tarde te amei…”

“Oh! verdade! luz do coração; oh! amor que arde sempre e não consome jamais, amor de meu Deus, queima e consome meu coração!…

Mônica percebia as aspirações do filho e com isso se alegrava: a alma de Agostinho desejava Deus como um cervo na fonte; o dardo do amor divino feriu-a e a consome. Como todos os grandes convertidos, ele é um amante: a vida para ele tem por eixo a caridade cristã. O tempo do batismo se avizinhava. Transportaram-se a Milão e depois dos habituais preparativos, na noite do sábado santo Agostinho foi batizado pelo próprio Ambrósio e com ele também Adeodato: saíram transfigurados.

Uma piedosa tradição nos diz que o entusiasmo por tão comovente solenidade se apossou de todos os assistentes; Ambrósio inspirado, com os braços elevados ao céu, entoou o “Te Deum laudamus”, a que respondia Agostinho, alternando sua voz com a de Ambrósio.

Em Hóstia

Depois do batismo, Agostinho não teve outro desejo: viver em solidão, unicamente com Deus e para Deus. A rumorosa Milão lhe impedia de conseguir o ideal; pensou pois em voltar a Tagaste: africano de nascimento, queria viver na África, onde pensava em fundar um mosteiro.

De comum acordo com a mãe e os companheiros, foi decidida a partida. Pelos fins de outubro deixaram a cidade que assistira às derradeiras lutas e à vitória de uma mãe obstinadíssima contra o filho obstinado, e se puseram a caminho para Hóstia onde esperavam encontrar uma embarcação que os reconduzisse à pátria.

A viagem até Hóstia foi longa e cansativa e Mônica chegou extenuada; fô-la, contudo alegremente. Antes de partir, ou talvez em viagem a santa teve um êxtase. Depois da comunhão, em um impulso de reconhecimento, levantando-se com a fisionomia alegre e com o espírito arrebatado, gozando de grande paz, exclamou:

“Voemos ao céu, fiéis, voemos ao céu!” Agostinho e os circunstantes se espantaram; interrogaram-na, mas ela não respondeu. Aquele silêncio, imposto por sua modéstia, para nós é bastante eloquente e nos diz qual era sua virtude, que lugar ocupava em seu espírito o pensamento do céu.

Desde então, aquele sentimento que foi tão bem denominado “nostalgia celeste”, aquela necessidade da pátria eterna para a qual tendemos, não a deixou mais, e enquanto que antes, não queria abandonar a terra, mesmo desprezando-a, para não deixar o filho nas trevas entre perigos, agora que o via convertido e piedoso, o desprezo pela terra se transformou em uma ardentíssima aspiração do céu, onde fixa o olhar e o pensamento.

O êxtase de Mônica

Hóstia nessa época era o empório, o porto de Roma e por isso cidade bastante ruidosa. Todavia, nossos africanos acharam hospedagem em uma casinha tranquila longe do vaivém e do estrépito dos homens atarefados com coisas terrenas. Foi justamente nesta casa que assistimos a uma cena na qual apareceram na sua luz gloriosa, as figuras de Mônica e de Agostinho.

No terraço, mãe e filho, contemplavam enlevados, a natureza. Diante daquelas faces pálidas e descarnadas, diante daqueles olhos vivos e cintilantes se apresenta um espetáculo grandioso e comovente ao mesmo tempo. De um lado, o mar reflete como tenríssimo cristal o esplendor do sol poente. O céu esplêndido e azul, termina longe, longe, confundindo-se com o azul do mar. De outro lado, a amplidão imponente e severa das campanhas romanas, o verde das árvores, o silêncio crepuscular: tudo leva à contemplação do infinito.

Agostinho e Mônica admiram e falam do céu, da eternidade. Aspiram, diz o próprio Agostinho com os lábios da alma aos mananciais de vida que estão no mesmo Deus.

Transportados por novo ímpeto para a felicidade eterna, atravessam umas depois das outras, as coisas corpóreas, o sol, a lua, as estrelas, o firmamento, passam além e estacam no Paraíso, pátria bem-aventurada. Anelando aquelas paragens divinas, delas falando, tocaram nas por instantes, num supremo arremesso do coração.

Quanto durou esse êxtase? Não o sabemos: Agostinho mesmo não nos diz. Subtraídos à vida dos sentidos num gozo jamais experimentado, ainda que tivesse passado um dia, lhes teria parecido um relâmpago.

Esta união mística mas real e indescritível da criatura com o Criador, do homem com Deus, deixou nos santos uma tal nostalgia do céu que com mágoa e sumo pesar se resignaram a voltar à terra. Porém foi forçoso descer e Agostinho, em tom de doloroso lamento, disse:

“Vendo que era preciso descer, suspiramos, deixando prisioneiras no alto as primícias do espírito.” A doce visão se tinha desvanecido: pouco a pouco tocaram de novo a terra desiludidos e confusos.

Ainda absorta no pensamento do céu, Mônica, sentiu que sua missão se tinha cumprido, movida por um seguro pressentimento volta-se para Agostinho e Jne diz:

— “Meu filho, quanto a mim nada mais me satisfaz nesta vida. Que farei neste mundo, ou para que ainda estarei aqui, não sei. A única coisa que me fazia desejar permanecer ainda um pouco neste mundo era ver-te cristão e católico. Antes de minha morte Deus me concedeu mais e melhor do que isso, pois te vejo desprezar a terra para servir a Ele só. Que faço?

Morte Bem-Aventurada

Depois do êxtase, Mônica não vivia mais na terra. Aquele êxtase, foi o adeus de quem, esgotada toda esperança no mundo, se aproxima da morte, aguardando de instante a instante o aviso da partida, o chamado do céu, onde não só deixara as primícias do Espírito, mas também o coração.

De fato, cinco ou seis dias depois do colóquio com o filho, uma febre maligna a assaltou e a constrangeu a se por de cama para não mais se levantar.

Passado o primeiro dia, o mal piorou até fazê-la desmaiar. Agostinho, Navígio e o pequeno Adeodato acreditando-a no fim da vida, rodearam-na e enquanto tratavam de fazê-la voltar a si, ela abriu docemente os olhos, olhou em redor, surpresa, e disse:

— “Onde estou?”

Vendo depois os filhos aflitos, compreendeu que a morte se avizinhava e disse com voz resoluta:

— Sepultareis aqui vossa mãe. Atormentado com a idéia da morte, Navígio, o filho afetuoso que a tinha acompanhado sempre, protestou:

— Não, mamãe, ficará boa, morrerá na pátria… E teria continuado se a enferma não o interrompesse. Perturbada e aflita com a linguagem tão pouco cristã, voltando-se para Agostinho, disse:

— Ouviste como ele fala?

Depois virando-se para todos e com voz risonha prosseguiu:

— Colocai meu corpo em qualquer lugar sem que isso vos de cuidado: só vos peço que vos lembreis de mim no altar do Senhor, onde quer que estiverdes.

Depois disso o mal foi se agravando cada vez mais: sofria dores agudíssimas, mas o amor que intimamente a consumia era mais forte: jamais se lamentou e assim os derradeiros dias, as últimas dores de sua vida a integraram completamente em Deus; a morte devia completar a obra, quebrando os laços que ainda a prendiam à terra.

Agostinho assistia edificado a esta transformação; proporcionava os derradeiros cuidados, mais ternos e afetuosos, àquela que tantos tivera com ele. Mônica mais forte que o filho, vendo-o tão abatido, confortava-o e lhe agradecia. Chamava-o o seu bom filho e, percebendo nele o arrependimento de tê-la contristado e havê-la feito chorar por tantos anos, o apertava contra o coração e lhe assegurava nunca ter ouvido de sua boca palavra alguma que lhe tivesse causado tristeza.

Era o cúmulo da ternura materna. Agostinho o compreendia: mais que as palavras, foram os atos dele a vida que a fizeram chorar e a levaram a morrer em solo estrangeiro.

Passaram assim os dias de sua enfermidade. No nono dia teve o pressentimento seguro do próprio fim. Pediu ardentemente a Eucaristia, mas as dores de estômago eram tais que lhe impediram de receber este conforto.

Foi este o último sacrifício e o Senhor a recompensou. Uma piedosa tradição, recolhida pelos Bolandistas nos narra que, pedindo com insistência o Viático achavam que lhe deviam negar; foi então visto entrar no quarto um menino: aproximou-se do leito da Santa osculou-a no peito e ela, como se fosse chamada, abaixou a cabeça e expirou verdadeiramente no beijo de Senhor. Era no ano de 387; Mônica contava 56 anos de idade.

Agostinho lhe fechou os olhos. Confortado a princípio pelo pensamento da felicidade ao encontro da qual ia a mãe ao morrer, teve a coragem e a força de não chorar, ele sempre terno e de lágrimas fáceis; parecia-lhe que chorando perturbaria a felicidade da mãe.

Adeodato ao contrário não se conteve e jogando-se sobre o corpo da defunta avó, banhando-a de lágrimas, caiu em soluços. Os assistentes muito comovidos fizeram-no calar, todavia, aquele pranto os comoveu profundamente e Agostinho depois de muito ainda se recordará do fato, ressoando-lhe ainda aos ouvidos os gritos do filho: “Parecia-me, diz, que era a minha alma de criança que queria chorar como ele”.

Acalmado” Adeodato, os presentes recitaram diante do cadáver ainda tépido de Mônica, os salmos de Davi. Acabada a oração, foi Agostinho chamado a parte. Um fato veio consolá-lo na desventura: numerosos cristãos, na maioria mulheres piedosas, acorreram a visitar a Santa, louvando o Senhor por uma morte tão comovente.

As visitas duraram todo aquele dia. No dia seguinte, o corpo foi levado para a igreja, onde foi oferecido o Santo Sacrifício pela alma da defunta e depois foi sepultado. Agostinho seguiu o corpo da mãe contendo as lágrimas; nem mesmo diante da sepultura aberta chorou. Temia, por uma reserva toda cristã, escandalizar os fiéis presentes se imitasse aqueles que não têm fé, os pagãos. Mas o esforço constante para dominar a sua dor, era um novo sofrimento para ele; as lágrimas para os mortais são um desafogo, um alívio; retendo-as se ocasiona uma dor mais acerba: era por isto que passava Agostinho.

O dia terminou para ele numa tristeza mortal. Buscou conforto em passeios mas nada aliviou o seu desgosto. No dia seguinte, ao despertar, pensando outra vez em todo o amor, em toda a ternura recebida daquela mãe, não se conteve mais: “Libertei, diz, as lágrimas que comprimia, para que banhassem o meu rosto quando fosse de seu agrado…” Sentado no leito, com a cabeça entre as mãos sentiu a volúpia das lágrimas, pranteando aquela que tanto chorara por ele.

Reflexão

Os séculos XX e XXI se podem muito bem comparar com o de Agostinho. Em nenhum tempo como o nosso, as mães verdadeiramente convictas de sua missão, foram chamadas a dores tão profundas. Dizer que vivemos tempos piores que o de Santo Agostinho talvez se tenha um pouco de exagero; mas é certo que nenhuma época foi tão atormentada como a nossa por crises materiais e sobretudo morais. As crises materiais são também causadas pelas crises morais da consciência.

Homens apáticos, indiferentes para as coisas da religião, sem oração e até sem Deus! Jovens que recusam desdenhosamente ouvir os conselhos das mães, abandonam a fé de sua infância, desertam da Igreja e chegam ao túmulo sem terem perguntado a si próprios se têm alma, se têm deveres para com Deus que os criou.

Inteligências ricas que se obscurecem, e se consomem no vício. Vidas sem nobres ideais, privadas de entusiasmos generosos, fechados unicamente no círculo do egoísmo e dos prazeres.

Neste século importa reformar a educação e esta se reforma transformando as mães. O século dos Agostinhos será resgatado por um século de mulheres que imitarão o exemplo de Santa Mônica.

Por isso convém antes de tudo que as mulheres, os anjos tutelares do homem, plenamente cônscias da própria missão salvadora, não recuem, mas com plena consciência das forças divinas que o Sacramento do matrimônio pôs nelas, tenham a coragem de cumprir com a obrigação de salvar os entes queridos. Santa Mônica, rogai por nós e por todas as mães e todos os Agostinhos de nossa época. Amém

Fonte:

http://alexandriacatolica.blogspot.com

Grifos Nossos

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