Santo Eulógio de Córdoba

Erudito prelado, Doutor da Igreja e principal ornamento da Espanha católica no século IX. Tendo combatido firmemente os erros da época mozárabe, sua vida foi coroada com a palma do martírio.

 

Santo Eulógio de Córdoba2

 

Para compreendermos bem o contexto no qual Santo Eulógio viveu, será útil ter presente alguns dados históricos.

Os visigodos — povo germânico oriundo da Escandinávia — no início do século V invadiram a Península Ibérica, a qual, por sua vez, havia sido invadida anteriormente pelos vândalos, suevos e alanos, cuja população hispano-romana dominaram.

Os novos invasores eram hereges arianos, e católicos os hispano-romanos. Foi só em 587 que o rei visigodo Recaredo abjurou a heresia ariana tornando-se católico com parte de seus súditos. Apesar de dominarem política e administrativamente o território peninsular, os visigodos nunca foram capazes de realizar uma colonização efetiva, visto serem numericamente inferiores ao restante da população da região.

No início do século VIII eles já estavam tão decadentes, que em 711 foi possível aos árabes (sírios, egípcios, persas e bérberes muçulmanos) comandados por Tarique, oriundo de Tanger, atravessar o estreito de Gibraltar e penetrar na Península Ibérica, instaurando assim o que chamaram o Al-Andaluz.

Entretanto, os seguidores de Mafoma visavam bem mais: conquistar a então Gália como cabeça de ponte para controlar todo o Mediterrâneo. Assim, eles invadiram em 721 o sul dessa região, onde foram detidos pela bravura de Odo, o Grande, duque de Aquitânia. Numa nova tentativa, em 732, Carlos Martel, prefeito de palácio da monarquia merovíngia, derrotou Abd-ar-Rahman, do Califado de Córdoba, na batalha de Poitiers ou de Tours, liquidando com esse sonho de conquista.

Os mouros se resignaram então a consolidar sua expansão na Península Ibérica. Já em 722, um grupo aguerrido de espanhóis, tendo à frente o destemido Dom Pelayo, deu início à heroica reconquista espanhola com a vitória na famosa Batalha de Covadonga. A partir daí, transcorreram quase 700 anos para que todo o país fosse reconquistado aos mouros, o que se deu com a queda de Granada em 1492.

No início do século IX, época focalizada no presente artigo, os islamitas eram obrigados a tolerar a prática pública da Religião católica em suas igrejas e mosteiros, cobrando, entretanto, um tributo de cada cristão. Assim, a Igreja vivia numa falsa paz sob os ocupantes maometanos, o que induzia muitos católicos a uma prática acomodatícia e modorrenta da religião.

 

Firmeza na oposição aos muçulmanos

 

Foi nesse contexto histórico que no início do século IX nasceu Santo Eulógio. Seus pais eram nobres e ricos, pertenciam à antiga nobreza hispano-romana e se conformavam em tudo com a Lei de Deus e as leis da Igreja. Por isso, deram aos filhos uma educação eximiamente católica para enfrentarem as influências indesejáveis: ariana, da parte dos visigodos, e muçulmana, proveniente dos árabes.

Para se ter uma ideia da relativa paz religiosa que os árabes eram então obrigados a manter, tenha-se em conta o fato de que um dos irmãos de Eulógio era funcionário na administração moura, enquanto outros dois exerciam livremente o comércio; e uma irmã, Anulona, professara num convento.

Segundo narra seu biógrafo, Eulógio recebeu sua primeira formação de um avô. Este lhe inculcou, junto com a fé católica, uma firme rejeição aos muçulmanos, a quem qualificava de “inimigos do Deus verdadeiro”. O menino continuou seus estudos no colégio sacerdotal da basílica de São Zoilo. Entrou depois na escola do sábio e virtuoso abade Spera-in-deo, que“naquele tempo edulcorava com sua prudência todos os limites da Bética”, como observa o primeiro biógrafo do santo. Naquela escola o santo obteve consideráveis progressos na ciência e na virtude.

Eulógio iniciou então duradoura amizade com Álvaro Paulo, um rico burguês cristão de ascendência judaica conhecido depois como Álvaro de Córdoba, apaixonado como ele pelas obras de Santo Isidoro de Sevilha, o santo e erudito espanhol do século VII. Álvaro escreverá em 860 a vida de seu amigo na obra intitulada:Vita vel passio Divi Eulogii.

Aos 25 anos Eulógio foi ordenado sacerdote e integrou-se ao clero da igreja de São Zoilo. Passou então a dividir seu tempo entre a contemplação e a cura das almas.

 

“Escritor elegante e sapientíssimo”

 

Álvaro de Córdoba assim descreve seu grande amigo: Era um varão que sobressaía em toda linhagem de obras e merecimentos; que socorria a todos na proporção de suas necessidades, e que, sobrepondo-se a todos em ciência, considerava-se o menor entre os menores. Seu rosto era claro e venerável; sua palavra eloquente, suas obras luminosas e exemplares. Escritor elegante e sapientíssimo, ele alentava os mártires e compunha seus elogios”.

Suas notas autobiográficas mostram um homem profundamente religioso, com autêntico espírito do catolicismo. O sentimento de sua indignidade diante de Deus levava-o a prorromper em lamentações. Ao considerar sua elevação ao sacerdócio, dizia: “Senhor, eu tinha medo de minhas obras; meus crimes me atormentavam. Via sua monstruosidade, meditava no juízo futuro, e sentia de antemão o castigo merecido. Mal me atrevia a olhar o céu, acabrunhado pelo peso de minha consciência”. De quais crimes em sua humildade ele se acusava? Em sentido contrário, Álvaro Paulo afirma: “Todas suas obras estavam cheias de luz. De sua bondade, de sua humildade e de sua caridade podia dar testemunho o amor que todos lhe professavam. Seu afã de cada dia era acercar-se mais e mais do Céu, e gemia sem cessar pelo peso da carga de seu corpo”.

 

Recafredo, o indigno arcebispo de Sevilha

 

Santo Eulógio desejava muito realizar uma peregrinação ao túmulo dos Apóstolos, em Roma. Entretanto, como deveria fazê-lo a pé, atravessando os Pirineus e os Alpes, seus amigos e parentes dissuadiram-no do projeto. Ele então viajou pela Espanha e visitou, entre outros lugares, a Catalunha, Zaragoza e Pamplona, estimulando os cristãos em todas as cidades por onde passou e adquirido livros para a sua biblioteca. No regresso deteve-se por algum tempo em Toledo, procurando afervorar os católicos dessa cidade na fé.

No ano 850 o emir Abderramão II iniciou uma perseguição contra os cristãos, fazendo com que muitos deles acordassem de sua sonolência.

Num auge de fervor, inúmeros católicos defenderam sua fé com ufania, rejeitando Maomé e seus sequazes, e obtendo assim a coroa do martírio. Nessa ocasião entrou em cena Recafredo, arcebispo de Sevilha, que por temor ou lisonja entrou em composição com o emir.

A pedido deste, o indigno prelado começou a anatematizar os mártires, qualificando-os de “fanáticos” e “perturbadores da Igreja e da sociedade”. Aliás, foi ele mesmo o causador da prisão do bispo de Córdoba e de vários de seus sacerdotes, entre eles Santo Eulógio, a quem acusava de animar e fortalecer os mártires voluntários. Quantos seguidores tem hoje Recafredo, nem falar!

Temendo uma revolta, Abderramão tomou severas medidas contra os cristãos, mandando decapitar no ato quem se atrevesse falar com desprezo de Maomé. O resultado, segundo o próprio Santo Eulógio, foi que “aterrados pela cólera do tirano, todos mudaram de parecer com uma volubilidade inaudita, e começaram a maldizer os mártires”.

Santo Eulógio escreveu na prisão parte do Memorial dos Santos, longa carta ao bispo de Pamplona descrevendo os martírios, bem como o Documento Martirial, exortação ao martírio dedicada às virgens Flora e Maria, também encarceradas por ódio à fé. Fortalecidas por Eulógio, elas se apresentaram sem temor diante do juiz, deixando-se imolar por Jesus Cristo em 24 de novembro de 851, dia em que são celebradas no calendário litúrgico.

No dia 29 de novembro desse mesmo ano Santo Eulógio foi libertado do cárcere.

 

O “combate formosíssimo” de Santo Eulógio

 

No ano seguinte, com a ascensão ao trono de Maomé II, recomeçaram as perseguições aos cristãos, as quais continuaram com intermitência maior ou menor nos anos posteriores.

Em 857, Santo Eulógio escreveu a Apologética dos Santos Mártires, contra aqueles que negavam a palma do martírio aos heróis de Jesus Cristo que se ofereciam livremente a seus verdugos.

Vagando no ano seguinte a Sé de Toledo, Santo Eulógio foi eleito arcebispo metropolitano pela admiração que já despertava em toda a Espanha.

No entanto, por sua incansável atividade e proselitismo, ele causava grande indignação aos vizires. Nessa ocasião, Lucrécia, jovem muçulmana convertida ao catolicismo, procurou sua assistência. O santo a entregou então aos cuidados de sua irmã, que levava vida consagrada. Tendo os pais da moça descoberto o paradeiro da filha, Eulógio e Lucrecia foram aprisionados.

O prestígio pessoal de Eulógio e sua dignidade de arcebispo eleito de Toledo levaram o próprio emir a julgar seu caso. O santo fez então longa e ardente defesa do cristianismo, e chegou mesmo a convidar seus juízes a adorarem “o único e verdadeiro Deus”. Esta corajosa atitude fez com que os juízes o condenassem à morte por decapitação.

Álvaro de Córdoba assim comenta o martírio do santo: “Este foi o combate formosíssimo do doutor Eulógio, este seu glorioso fim, este seu trânsito admirável. Eram três da tarde de sábado, 11 de março de 859”.

Santo Eulógio “deixou um perfeito relato da doutrina católica ortodoxa, que defendia, da cultura intelectual, que propagava, do encarceramento e padecimentos que sofreu; em uma palavra, seus escritos mostram que ele seguia à letra a exortação de São Paulo: ‘Sede meus imitadores como sou de Cristo’”.

 

Reflexão

 

Eulógio viveu numa época em que as nações viviam constantemente em guerra e tinham que estar sempre preparadas para o combate. Eram muitas vezes invadidas por outros povos sedentos de aumentarem seu poderio e expandir suas fronteiras. Todo menino ao nascer já se preparava pra um dia ser um soldado, um guerreiro. Este era praticamente o destino de todo homem naqueles tempos. Vivia-se em permanente estado de guerra.

Talvez, por isso, o espírito dos católicos daquela época, também eram preparados para a verdadeira guerra que travamos diariamente. “Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6, 12).

Santo Eulógio foi um guerreiro de Deus no período mais glorioso que a História da Igreja teve: a Idade Média. Esta, tão criticada pelo mundo de hoje, proporcionou à Igreja, a maior quantidade de santos de sua rica e belíssima história. Criticada pela modernidade dos tempos atuais, porque o que se quer hoje é a vidinha fácil e sem luta, sem cruz. Chamam-na até de idade das trevas.

E realmente foi. Foi o período onde as trevas do mal tentaram de toda maneira destruir o Edifício Sagrado construído sobre Pedro. Mas, Deus então suscita uma Legião de Guerreiros e Heróis, para que com o sopro do Espírito Santo, estas densas trevas fossem apagadas e o Templo do Senhor fosse, como nunca houve, iluminadas pelo sangue e pela luta de tantos lutadores da Fé. Obrigado Santo Eulógio e todos os santos e santas que contribuíram com a vida, para que hoje, pudéssemos olhar pro exemplo que deixaram pra nós de como “combater o bom combate”, “terminar a carreira” e alcançar “a coroa da vitória”. Santo Eulógio de Córdoba, rogai por nós. Amém!

 

Fonte:

 

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/5AD371EF-A9EC-3440-02FF28688054AF8D/mes/Mar%C3%A7o2013

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