Beata Maria Josefina de Jesus Crucificado

Beata Maria Josefina de Jesus Crucificado1

Soube sacrificar, sem dúvida, o seu ideal de escondimento à vontade de Deus, expressa pelos superiores. “Como queria passar as minhas horas na cela – dizia -, mas as almas me esperam e a tudo devo renunciar por amor a eles”. Nos seus propósitos escrevia: “Esta é a minha vida, ó Jesus: atividade de obediência, de fé, de zelo para levar-te às almas, para conduzi-las a ti… Que me importa que isto me custe sacrifícios? Não me fez, tu, mamãe das almas? Darei a elas todas as minhas energias por teu amor, resistirei ao trabalho, mesmo sentindo-me faltar as forças, contente de sofrer até a morte, desde que as almas se salvem e te glorifiquem, ó Jesus”.

É fortemente teresiano o seu zelo pelas almas, erradicado no amor de Deus e na obediência à Igreja, capaz de motivar a vida contemplativa e acendê-la do único amor, aquele de Cristo.

 

Infância e mocidade

 

Josefina Catanea nasceu no dia 18 de fevereiro de 1894, em Nápoles, no seio da nobre família dos marqueses Grimaldi. Desde pequena mostrou uma predileção particular pelos pobres e os mais necessitados, destinando-lhes o dinheiro que lhe davam para brinquedos ou merendas, e ajudando a duas velhinhas que viviam sozinhas.

O exemplo de sua avó e de sua mãe foi a escola onde aprendeu a conhecer Jesus e a se enamorar dEle. Tinha uma devoção particular pela Eucaristia e pela Virgem Maria, o que demonstrava rezando o Rosário.

Depois de terminados os estudos, em 10 de março de 1918, superando a oposição de sua mãe e de seus familiares, ingressou no Carmelo de Santa Maria, em “Ponti Rossi”, lugar assim chamado porque ali se encontravam as ruínas de um aqueduto romano.

 

Finalmente monja Carmelita Descalça

 

No Carmelo aprendeu a amar a Cristo em meio ao sofrimento, oferecendo-se como vítima pelos sacerdotes. Soube aceitar a vontade de Deus, embora isto significasse grande dor física: se viu afetada por uma forma grave de tuberculose na espinha dorsal, com dores nas vértebras, que a paralisou completamente. Em 26 de junho de 1922 foi curada milagrosamente, de forma instantânea, depois do contato com o braço de São Francisco Xavier, que lhe levaram até sua cela.

A “monja santa”, como a chamava o povo, iniciou um grande apostolado principalmente no locutório do convento, acolhendo a todo tipo de pessoas doentes e necessitadas de ajuda, tanto material como espiritual, às quais proporcionava consolo e conselho para encontrar o amor de Deus. Inclusive realizou milagres.

Sua abnegação prosseguiu também quando foi acometida de outras enfermidades que a obrigaram a usar cadeiras de rodas, crucificando-se com Jesus pela Igreja e pelas almas.

Josefina, como a irmã Antonietta e as outras jovens que viviam sobre a colina de Santa Maria ai Monti, junto aos Ponti Rossi, sempre se sentiram Carmelitas Descalças, mas eram também conscientes que, depois de tantos anos de experiência teresiana, faltava ainda a aprovação oficial por parte da Ordem dos Carmelitas Descalços e por parte da Igreja. Josefina vai a Roma e encontra pessoalmente o Cardeal Rossi, carmelita Descalço, o Pe. Guglielmo, Geral da Ordem, e o Prefeito da Congregação dos Religiosos, o Cardeal Lépicier. A eles apresenta a situação da comunidade e o vivo desejo de ser confirmada entre as Carmelitas Descalças.

 

Reconhecimento pontifício

 

Após três meses, no dia 7 de Dezembro de 1932, o Papa Pio XI aprova a fundação do Carmelo em Ponti Rossi, Nápoles, como mosteiro de Carmelitas Descalças. No dia 30 de Janeiro onze terciárias recebem o hábito e iniciam o noviciado. Josefina tem então 39 anos.

No dia 6 de Agosto de 1933 Josefina Catanea torna-se, com a primeira profissão, regra que já vivia desde 1918, Irmã Josefina de Jesus Crucificado. A Jesus, naquele dia solene e íntimo, pede uma graça: “Que eu não seja jamais privada do dom preciosíssimo do sofrer”. Jesus a contentou e a configurou a si até o último instante da sua vida. Ir. Maria Josefina, consciente de ter sido escutada, escreve alguns anos mais tarde: “Quando penso que Jesus me colocou com Ele sobre a Cruz, sinto em mim uma maternidade espiritual, uma ternura pelas almas, uma alegria grande, profunda que não sei dizer”. Ir. Maria Josefina, a este ponto, tem um só medo: não amar o Amor. Por isto quer convergir tudo sobre Jesus, vive uma concentração cristológica, um esponsal elevado ao máximo. Escreve: “Fazer-me crucificar com Jesus para morrer com Ele, para ressurgir com Ele”.

Aqui encontramos a síntese pascal da sua existência, o seu percurso espiritual. Anota em um outro escrito: “Ó Jesus, absorve-me em ti, aprofunda-te em mim, transforma-me em Ti, faz que eu viva só de Ti”. Como Santa Teresa de Jesus, Ir. Maria Josefina está dizendo, ao seu modo, a partir da sua experiência: “Só Deus basta”.

 

Direção do Carmelo

 

Em 1934 o Cardeal Alessio Ascalesi, arcebispo de Nápoles, a nomeou sub-priora; em 1945, vigária; e em 29 de setembro desse ano, no primeiro capítulo geral, foi eleita priora, cargo que desempenhou até sua morte.

Sua espiritualidade, sua docilidade amorosa, sua humildade e simplicidade, lhe granjearam grande estima durante os anos da 2ª. Guerra Mundial. Rezava sem cessar, alimentando assim sua confiança em Deus, com a qual contagiava a todos os que se dirigiam em peregrinação a “Ponti Rossi” para escutar suas palavras de alento, consolo e estímulo para superar as provas e as dores das tristes situações resultantes da guerra.

Compartilhou os sofrimentos de Cristo de forma silenciosa, porém alegre. Suportou durante muitos anos duras provas e perseguições com espírito de abandono à vontade de Deus. Também gozou de carismas místicos extraordinários.

Por obediência e por conselho de seu diretor espiritual, escreve sua “Autobiografia” (1894-1932) e seu “Diário” (1925-1945), bem como numerosas cartas e exortações para as religiosas.

 

A devoção a Maria

 

A devoção de Ir. Maria Josefina à Virgem é grande. Ela explica assim àqueles que se admiram da sua familiaridade com Ela: “Sinto na alma a ternura que a Santíssima Virgem tem pelas almas”. Tem clara a consciência que Maria de Nazaré opera na sua ida e na vida daqueles que encontra no Carmelo, escreve: “Quero a completa transformação do meu espírito n’Ele”. Ir. Maria Josefina, na escola do Carmelo, aprendeu que a verdadeira devoção a Maria é toda interior, que a verdadeira imitação começa nos espaços interiores da Virgem, que é preciso habitá-la dentro, olhá-la dentro para poder verdadeiramente imitá-la.

Assim, o verdadeiro devoto de Maria transforma-se mariforme e se reencontra, ao mesmo tempo, por graça, sempre mais cristificado. Escreve sobre este aspecto: “Maria, nenhum outro, deve unir a nossa alma a Deus bendito, com união íntima de adesão ao divino querer”.

 

O amor aos sacerdotes

 

Não existe Carmelita Descalça que não nutra um amor grande aos sacerdotes, um amor que nasce da dimensão teologal e encontra fundamento na comunhão dos santos, naquela eclesiologia de comunhão que leva a viver a Igreja como “corpo”, com sentido de corresponsabilidade e de companhia.

Ir. Maria Josefina, desde o início da sua missão, vê os sacerdotes como os “prediletos”; para eles oferece a sua vida de contemplativa, com eles vive a missão de mãe. Recebe-os no Carmelo com extrema delicadeza e amor, a eles dedica tempo e atenção, reza com eles e por eles oferece a si mesma, faz brilhar, em cada encontro, a sua altíssima e belíssima vocação.

 

A beleza de uma vida vivida às últimas consequências

 

A partir de 1943 começou a sofrer várias enfermidades especialmente dolorosas, que incluíram a perda progressiva da visão. Convencida de que essas enfermidades eram vontade de Deus, as acolhia como “um dom magnífico” que a unia cada vez mais a Jesus Crucificado. Com um sorriso nos lábios, ofereceu seu corpo como altar de seu sacrifício pelas almas.

Os últimos meses da vida de Ir. Maria Josefina são assinalados pelo sofrimento e pela presença do Amado Senhor: “Sofro muitíssimo, mas sou feliz”. No dia 14 de Março de 1948, frei Romualdo lhe dá a santa comunhão. À tarde chega ao mosteiro o Cardeal Ascalesi que a abençoa e lhe dirige estas últimas palavras: “Se Deus te quer vai, minha filha, te deixo livre: faz a vontade de Deus”. Às 19:10h do dia 14 de março de 1948, domingo da Paixão, Ir. Maria Josefina contempla finalmente a radiante beleza do seu amado Senhor Crucificado e ressuscitado, a beleza daquele que por toda a vida a foi configurando lentamente a si. Tinha 54 anos. No dia 27 de Dezembro do mesmo ano o Cardeal Ascalesi inicia em Nápoles o processo informativo. No dia 3 de janeiro de 1987, Papa João Paulo II proclama a heroicidade com que viveu as virtudes. Foi beatificada na Catedral de Nápoles pelo Cardeal Crescenzio Sepe em 1º de junho de 2008. A sua memória litúrgica é celebrada em 26 de junho.

 

Reflexão

 

O Cardeal Saraiva Martins dirigiu estas eloquentes palavras sobre a vida da Beata Maria Josefina, no dia de sua beatificação: Quanto mais nós contemplamos o Senhor, no meio dos seus santos, entrando em viva comunhão com Ele, mais forte se torna em nós a esperança do empenho efetivo e eficaz para melhorar e mudar o mundo circunstante. Em particular, ao olhar para a história e para a mensagem da beata Josefina, compreendemos melhor a exigência iniludível da dimensão contemplativa, na vida de cada cristão. O seu exemplo indica-nos também a estrada concreta para a cultivar.

Sua existência foi uma verdadeira escola de caridade, quer para as irmãs de hábito, quer para o vasto campo de apostolado, por ela, cultivado mesmo sendo monja de clausura, foi unicamente para fazer amar mais o Senhor. De fato, ela, como Santa Teresinha do Menino Jesus, não quis “ser uma santa pela metade” (Teresa do M.J., Obras completas, cit., 91 e 942), também com as suas peculiaridades e os seus dons místicos, com várias experiências espirituais fora do comum. Tudo se encontra resumido numa frase que constituiu o programa unitário de toda a vida da beata: “Quero viver alimentando-me da vontade de Deus… Quero que a minha vontade seja uma só massa com a vontade de Deus”.

E ainda no seu diário: “Desejo fervorosamente viver na vontade de Deus, sei que desse modo se fazem os santos, e quero tornar-me santa para dar glória a Deus”. Programa que deve ser a grande aspiração de todos os cristãos, em plena conformidade com a palavra de Cristo, Único e Supremo modelo: “O meu alimento é fazer a vontade do Pai” (cf. Jo 4, 34), porque: “Quem faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 Jo 2, 17)”. Beata Maria Josefina de Jesus Crucificado, rogai por nós. Amém!

 

Fonte:

 

http://rainhadocarmelo.blogspot.com.br/2012/06/beata-maria-josefina-de-jesus.html

http://heroinasdacristandade.blogspot.com.br/2013/06/beata-maria-josefina-de-jesus.html

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/csaints/documents/rc_con_csaints_doc_20080601_saraiva-martins_po.html

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