Beata Alexandrina de Balasar

A história do século XX, que herdamos com as suas luzes e sombras, as inquietudes e os verdadeiros dramas que o caracterizaram, é iluminada contemporaneamente pelo testemunho dos Santos que, como pontos de luz, tornam visível a presença de Cristo na História, fruto da sua promessa: “Eu estarei convosco todos os dias até o final dos tempos”. (Mt.28,20)

Testemunha particular do amor apaixonado de Cristo pelos homens do século XX e do seu desejo infinito de salvá-los é a Beata Alexandrina Maria da Costa, leiga, Cooperadora Salesiana; viveu na primeira metade de 1900 (1904-1955). Foi chamada a ser, no firmamento da Igreja, uma nova “estrela eucarística.”

 

A infância e a defesa da pureza

A missão de Alexandrina de cooperar com Jesus na salvação das almas e a vocação de alma-vítima explicam o seu nascimento e o fato extraordinário que o tinha de algum preanunciado muitos anos antes. Em Balasar, de fato, sua terra natal, situada ao Norte de Portugal, na Arquidiocese de Braga, no dia de Corpus Christi de 21 de Junho de 1832, na estrada que liga a Igreja paroquial ao Calvário onde viveu Alexandrina, apareceu no chão uma cruz de cor diferente do chão e, não obstante todas as tentativas do pároco para apagá-la, lavando o chão, a cruz mantinha-se, reaparecia. Este sinal, visível e documentado, foi confirmado por Jesus durante o êxtase de 5 de Dezembro de 1947:

 

“Quase um século era passado que Eu enviei a esta privilegiada freguesia a cruz para sinal da tua crucifixão. …  

Estava preparada a cruz; faltava a vítima, mas já nos planos divinos estava escolhida: foste tu. …

Desta cruz, desta imolação, tirei dois proveitos: o amor à Cruz, o amor à minha imagem crucificada e grande reparação.

Não é só a minha Alexandrina a ser na cruz crucificada, mas Cristo nela e com ela”.

O nascimento terreno de Alexandrina deu-se na semana santa de 1904, quarta-feira, 30 de Março. Eram tempos difíceis para Portugal e para quase todos os Países Europeus que enfrentavam profundas mudanças sociais, econômicas e políticas: a primeira Guerra Mundial estava às portas, a Igreja era desafiada por um pensamento filosófico ateu que pela primeira vez aparecia para estruturar-se num sistema político totalitário.

Celebrava-se naquele ano o 50º Aniversário da definição do Dogma da Imaculada Conceição e, fato não menos importante na vida de Alexandrina, a ela que devia tornar-se a esposa do Cordeiro Imaculado e imolado pela redenção do homem, a Virgem Maria transmitiu um amor particular pela pureza e por Jesus-Eucaristia, que recebeu pela primeira vez ainda menina, aos 7 anos. Alexandrina guardou estes dons com a oração e a vigilância interior e lutou para defendê-los desde cedo, até quando, adolescente, não hesitou em jogar-se pela janela para escapar a três homens que tinham entrado em casa com a intenção de abusar dela, da sua irmã Deolinda, que tinha então 17 anos, e de uma amiga que se encontrava na casa. Era o Sábado Santo de 1918 e Alexandrina tinha 14 anos. Este episódio doloroso significou uma virada na sua vida: – concluía-se dramaticamente a sua adolescência vivaz, vivida até aquele momento entre trabalho nos campos para ajudar a mãe e a vida na paróquia, onde fazia parte do coro e ensinava o catecismo; iniciava para ela o encontro precoce com o sofrimento físico e moral, que ocupou sempre mais o seu espaço vital. As consequências do trauma derivado da queda foram tais que aos 21 anos ficou completamente paralisada por uma mielite na espinha dorsal.

Desfeita qualquer esperança de cura, que Alexandrina havia insistentemente pedido com fé à Virgem de Fátima, doou-se totalmente a Jesus através de Maria, com o voto perpétuo de virgindade, e ofereceu-se voluntariamente como vítima. Tinha compreendido, nas longas horas de silêncio e de oração vividos no seu quartinho, o íntimo laço que a unia a Jesus no Sacrário e desde aquele momento quis viver continuamente unida a Ele, desenvolvendo e nutrindo por Jesus-Eucaristia um amor sempre mais forte e generoso, que não recusava nada para demonstrar-lhe o seu amor, a sua gratidão e o desejo de reparar, a fim de que todos os homens pudessem conhecê-lo e amá-lo.

Os êxtases

A riquíssima experiência mística de Alexandrina chega a nós através das numerosas páginas de seu diário e das cartas, escritas aos diretores espirituais, o jesuíta Pe. Mariano Pinho e o salesiano Pe. Humberto Pasquale. Os seus escritos, na maior parte ditados à sua irmã Deolinda durante os 30 anos de vida passados na cama, paralisada, pertencem ao patrimônio da “teologia vivida pelos Santos”, que João Paulo II nos indicou na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, como caminho, ao lado da “pesquisa teológica”, para compreender o Mistério de Cristo, Redentor do homem.

Alexandrina escolheu o Deus vivo, presente na Santíssima Eucaristia, colocou-se aos seus pés para viver d’Ele e por Ele.

Jesus-Eucaristia tornou-se o centro de todas as atenções, pensamentos e atos de amor. Na associação religiosa “As Marias dos Sacrários”, dedicada ao culto eucarístico e fundada pelo bispo espanhol Beato Manuel Gonzales García e na Associação “Filhas de Maria” encontrou inicialmente o ambiente espiritual de referência para alimentar a sua vocação eucarística e mariana.

Sucessivamente foi Jesus mesmo que revelando-lhe a sua missão lhe indicou também o caminho para poder a realizar: 

 

“Vai aos meus Sacrários, vive lá. É de lá que vem a força para tudo.

Ama-me muito, pensa somente em mim.

A missão que te confiei são os meus Sacrários e os pecadores; elevei-te a tão alto grau. É o meu amor.

Por ti serão salvos muitos, muitos, muitos pecadores; não pelos teus merecimentos, mas por mim que procuro todos os meios para os salvar…”

Foi na escola do Sacrário, à luz da Eucaristia, que Alexandrina foi instruída por Jesus Mestre para realizar a sua missão.

“Vem aos meus sacrários, – dizia-lhe Jesus – vem à minha escola, aprende do teu Jesus o amor ao silêncio, à humildade, à obediência e ao abandono.

Faz que eu seja amado por todos no meu Sacramento de amor, o maior dos meus Sacramentos, o maior milagre da minha sabedoria”.

Minha filha, luz e “estrela eucarística”!

“Tu serás para o mundo aquilo que eu fui outrora e continuo a ser: fui Redentor, morri para dar o Céu às almas, fiz-me alimento para as almas.

Criei-te para que tu te assemelhasses a Mim: escolhi-te como vítima para que tu continuasses a minha obra de Redenção; coloquei no teu coração o amor, o amor louco pela Eucaristia.

É graças a ti e à luz desse fogo que deixaste acender que muitas almas, guiadas por esta Estrela escolhida por Mim, impelidas pelo teu exemplo, se transformam em almas ardentes, almas verdadeiramente eucarísticas.

Pobre do mundo sem a Santa Missa, sem Eucaristia! Pobre mundo sem as minhas vítimas, sem hóstias imoladas comigo continuamente!

Eu desejo, minha filha, diz que eu quero um mundo novo, um mundo de pureza, um mundo eucarístico.”

“Ajuda-me na redenção do género humano”

Foi a solidão humana de Cristo na sua missão terrena, particularmente evidenciada no Evangelho de S. Marcos, o primeiro aspecto que Alexandrina partilhou com Jesus. A solidão profunda do Redentor, inclusive aquela que nasce da rejeição do homem em acolher o dom do seu amor, reproduz-se sempre mais na vida de Alexandrina que enfrentou nos anos que se sucederam incompreensões, abandonos, calúnias, perseguições, que ela suportou e viveu eucaristicamente, perdoando sempre e oferecendo tudo ao Senhor para a Sua glória e a conversão das almas.

 

“Coragem, minha filha – lhe dirá Jesus – faço-te semelhante a Mim. Também eu fui perseguido.

Em todos os tempos a minha Igreja e aquilo que é Meu, foram objeto de perseguição.

Como não deve ser agora a minha causa mais rica, a missão mais difícil?

Coragem, minha amada!”

Jesus, o Esposo da alma, não a abandonará nunca, mas atraí-la-á sempre mais a uma vida de comunhão e doação esponsal que marcará a recíproca e indissolúvel pertença:

 

“Ama a solidão – lhe dirá Jesus – vai aos meus sacrários, é lá onde aprendes, é lá onde a solidão é mais praticada há anos, há séculos.

Está em recolhimento comigo, mantém o silêncio.

Coloca-te como num exílio, num deserto.

Falemos um ao outro com amor e ternura de esposos.

Coloca sobre mim todas as preocupações da tua vida e pede-me aquilo que desejas.

Confia em Mim. Não me deixes, minha filha, nem mesmo um instante só, na minha Eucaristia: seja lá o teu deserto.”

O abandono confiante à Virgem Mãe guiou-a até ao último instante da sua vida para tornar-se, como Ela, “Mulher Eucarística”, totalmente entregue ao Pai, para ser doada por Ele à humanidade como Mãe e refúgio dos pecadores.

 

“Ó minha pomba bela, tu és esposa e és mãe – disse-lhe Jesus em 1 de Dezembro de 1944 – mãe que não deixa de ser virgem. …

 Mãe dos pecadores, nova redentora, salva-os.”

E alguns dias depois, em 8 de Dezembro, a Virgem Imaculada entrega ao seu amor a humanidade inteira:

 

“Minha filha, venho com o meu Divino Filho fazer-te a entrega da humanidade e fechá-la em teu coração.

Ficam as chaves na posse do teu Jesus e da tua querida Mãezinha. …

És rainha dos pecadores, és rainha do mundo, escolhida por Jesus e Maria.

Hoje, dia da minha Imaculada Conceição, fazemos-te a entrega do teu reinado. Principia desde hoje, é teu, governa-o, guarda-o.

Guarda-o na terra, assim como o guardarás e governarás depois no Céu (…)”

É no Outono de 1934 que Alexandrina pela primeira vez se sente convidada por Jesus a participar de toda a sua Paixão, deixando-se crucificar para cooperar com Ele na salvação das almas. Este convite concretizou-se somente quatro anos depois, quando Jesus pediu, através dela, a Consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria e daria como sinal da autenticidade do pedido divino a Sua Paixão revivida em Alexandrina. Como a Santa Margarida Maria Alacoque o Senhor confiou o pedido da Consagração do mundo ao seu Sagrado Coração, e a Comunhão reparadora nas primeiras 9 sextas-feiras do mês, a Alexandrina pediu a Consagração do mundo ao Coração Imaculado de Maria e a prática da comunhão e adoração nas primeiras 6 quintas-feiras do mês em honra da Santíssima Eucaristia.

Em Fátima, no ano de 1917, através dos três pastorinhos, foi revelada a mensagem do Coração Imaculado de Maria acompanhada da comunhão reparadora nos primeiros 5 sábados do mês e a consagração da Rússia.

Na véspera da segunda guerra mundial e a partir de 1935, com a explosão da guerra civil na Espanha, Jesus indicou ainda o Coração da Mãe como remédio para a humanidade em perigo e pediu insistentemente, através de Alexandrina, que o Papa consagrasse o mundo ao seu Sagrado Coração Imaculado. De 3 de Outubro de 1938 até a Semana Santa de 1942, Alexandrina reviveu misticamente a Paixão de Nosso Senhor: do meio-dia até às 15h00 readquiria os movimentos do corpo e através dele tornava-se visíveis os sofrimentos de Jesus do Horto das Oliveiras ao Calvário até à Crucifixão. A Paixão da sexta-feira, visível externamente, terminou quando o Papa Pio XII, em Outubro daquele ano, consagrou o mundo ao Coração Imaculado de Maria, Rainha de todas as vitórias. Para Alexandrina continuou a Paixão íntima de Jesus e iniciou logo depois o jejum total, que se prolongará pelos últimos 13 anos da sua vida, durante os quais o seu único alimento foi a Eucaristia.

 

“Não te alimentarás mais na terra – disse-lhe Jesus – o teu alimento é a minha Carne, o teu sangue é o meu Divino Sangue, a tua vida é a minha Vida: de Mim a recebes quando uno o meu Coração ao teu, quando te consolo.

Não quero que uses remédios, exceto aqueles que não se possam considerar alimentação.

É grande o milagre da tua vida.

Faço que vivas só de mim para mostrar ao mundo o valor da Eucaristia e o que é a minha vida nas almas. És luz e salvação para a humanidade. Ditosos os que se deixam iluminar!”

Certa vez, um padre foi até Alexandrina para testá-la e levou-lhe uma hóstia não consagrada, mas ela disse ao sacerdote: “Não, padre, pão eu não posso comer”. Se grande foi este milagre eucarístico, ainda maior foi o milagre interior que se cumpriu através da Eucaristia: Alexandrina amou com o coração de Cristo e Cristo continuou a amar e a sofrer em Alexandrina para doar através dela a graça e a salvação à humanidade. Alexandrina sempre escondeu o seu martírio por detrás de um sorriso: quem entrasse no seu quarto saía tocado na alma pelo seu sorriso e dos seus olhos bons e penetrantes, que podiam olhar em profundidade o pecado do outro e mantê-lo no amor divino que regenera, uma vez que os seus olhos haviam visto e contemplado por longo tempo o olhar misericordioso e sedento de almas de Jesus Crucificado, agora vivo nela. Desejo concluir deixando falar ainda uma vez Jesus e Alexandrina:

 

“Dezanove séculos são passados que Eu vim ao mundo e trouxe agora a nova redentora escolhida por Mim para relembrar ao mundo o que Cristo sofreu, o que é a dor, o que é o amor e loucura pelas almas.

És a nova redentora que vens salvá-los, és a nova redentora que incendeias na humanidade o amor de Jesus!

Nova redentora que serás falada enquanto o mundo for mundo.

Minha filha, livro onde estão escritos com dor e sangue, letras de ouro e pedras preciosas todas as ciências divinas!…”

Às palavras de Jesus, fazem eco as de Alexandrina:

 

“É por isso que desejo sofrer: para que sobre a Terra possa existir somente amor.

É por isso que desejo dar a minha vida por Jesus e pelas almas que o pecado tenta matar.

A minha natureza tem horror ao sofrimento, mas o coração, transbordante de ânsia de glória e de amor a Jesus, voa num voo rápido e louco para embrenhar-se no sofrimento.

Que loucura pela dor, para que Jesus tenha somente amor e o mundo se incendeie nas chamas do amor divino a fim de que todos os corações se purifiquem e se inflamem no mesmo Coração divino! Quero amar, quero sofrer, quero reparar.”

A vida de Alexandrina, completamente doada ao Senhor, aproxima-nos do Mistério do Deus vivente, introduz-nos na verdade da redenção realizada por Jesus Cristo, Senhor da história, revelando-nos o seu rosto de homem, de crucificado, de ressuscitado, o seu rosto eucarístico, o rosto de Deus Amor.

Tinha pedido ao Senhor para poder morrer numa quinta-feira, o dia que ela amava particularmente, porque nele Jesus tinha instituído a Santíssima Eucaristia, e numa festa mariana pelo amor que alimentava pela Mãe do Céu. O seu desejo foi atendido: passou à vida celeste numa quinta-feira, treze de Outubro de 1955, aniversário da última aparição de Nossa Senhora em Fátima, e agora também dia da sua festa litúrgica.

Durante a homilia da cerimónia de beatificação de 25 de Abril, o Santo Padre, Beato João Paulo II, retomando a pergunta que Jesus dirigiu a Simão Pedro “Tu amas-me?” e a resposta do Apóstolo “Senhor, tu sabes que eu te amo”, evidenciou como o amor generoso e sem reservas por Jesus e pelas almas é a chave da leitura da experiência mística de Alexandrina:

A vida da beata Alexandrina Maria da Costa – disse o Santo Padre – pode resumir-se neste diálogo de amor. Permeada e ardorosa desta ânsia de amor, não quis negar nada ao seu Salvador: forte de vontade, aceita tudo para lhe demonstrar que o ama. Esposa de sangue, revive misticamente a paixão de Cristo e oferece-se como vítima pelos pecadores, recebendo a força da Eucaristia que se torna o seu único alimento nos últimos seus treze anos de vida. 

 Reflexão

Eis uma alma totalmente entregue ao seu Senhor e Salvador. Ele foi seu alimento espiritual durante toda a sua vida e físico durante 13 anos quando se alimentava somente das Santíssimas Espécies. Era uma alma tão eucarística, que Beata Alexandrina pediu que fosse enterrada com a face voltada para o sacrário, pois, de fato, ela adorou o Senhor de sua janela durante toda a sua vida. Que esta vida de santidade maravilhosa vivida por Beata Alexandrina seja inspiração para darmos o verdadeiro valor à Jesus Eucarístico, nos tornando verdadeiros adoradores do Senhor no sacrário. Beata Alexandrina, rogai por nós. Amém.

 Fonte:

http://alexandrinabalasar.free.fr/mulher_eucaristica.htm

Grifos Nossos

  1. 17/04/2013 às 21:27

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