São Romualdo

Fundador dos Camaldolenses

Subindo a montanha da contemplação

 

 

Quando, há quase mil anos, São Romualdo instalou-se com cinco discípulos no Eremitério de Camaldoli, na Itália, estava longe de pensar que aquela pequena instituição se tornaria um centro de oração e de cultura que atravessaria os séculos, estendendo sua irradiação até os dias de hoje e, que se tornaria uma Ordem religiosa contemplativa que se inclui entre as mais rigorosas existentes na Igreja: Os Camaldolenses.

 

Como o sol que a cada dia desponta com renovada beleza, assim também ao longo da História vão surgindo no seio da Igreja Católica carismas e vocações as mais belas, variadas e surpreendentes, desde um São Paulo, todo voltado à ação apostólica, um São Vicente de Paulo, dedicado à assistência aos pobres, ou um São Camilo de Léllis, consagrado aos enfermos, até almas que vivem no mais completo silêncio e isolamento, dedicadas unicamente à oração e à contemplação. Como a lamparina ardente diante do Santíssimo, vão se consumindo lentamente no zelo do Senhor.

Como acontece em relação a muitos santos da antiguidade e da Idade Média, não conhecemos muitas datas históricas certas, nem mesmo da vida de São Romualdo, embora tenhamos muitos testemunhos sobre a sua vida espiritual e as suas atividades. Os escritores das “biografias dos santos” concentraram sua atenção sobre a ação do Senhor que atuava na vida deles, e sobre a paixão de amor que os unia a Cristo até tornarem-se potente irradiação da sua graça e  exemplos vivos para os discípulos e  leitores de todo tempo. Para entender de maneira certa a vida destas testemunhas de Cristo, precisamos ter os olhos de quem deseja encontrar a Vida e não sómente o olhar do “historiador” que quer conhecer fatos do passado.

Experientes  testemunhas do Espírito de Cristo, falam a nós também e iluminam a nossa caminhada espiritual.

Sobre São Romualdo temos duas preciosas testemunhas. São Bruno Bonifácio (+1009), seu discípulo direito, e São Pedro Damião (+1072) que recolheu testemunhos de viva voz dos discípulos. O primeiro narra sua experiência pessoal  na “Vida dos 5 Irmãos” , enquanto o segundo escreve a “Vida de São Romualdo”.

 Incansável fundador e reformador de mosteiros

Romualdo era filho de Sérgio I, Duque de Ravena, homem da mais alta nobreza medieval, mas mundano e muito agressivo. Não foi, ele, pois, quem ensinou ao menino o caminho da santidade, mas foi o protagonista de um trágico acontecimento que marcou para sempre a vida de seu filho e o fez tomar a resolução de fazer-se religioso.

Por volta do ano 972, o Duque Sérgio bateu-se em duelo com um inimigo — ao que consta, um seu irmão, por litígio de terras —, matando-o a golpes de espada. E Romualdo, então com 20 anos de idade, foi testemunha da brutal cena.

Vendo o morto estirado ao solo, com as feridas jorrando sangue, e, de outro lado, a fisionomia feroz de seu pai, o jovem percebeu num relance como é horrível o homem que se deixa dominar pelas paixões desregradas. Muito chocado, tomou a decisão de abandonar os vãos prazeres da vida mundana. Decidiu tornar-se monge na abadia beneditina de Santo Apolinário em Classe, na cidade de Ravenna, que seguia a tradição da grande Cluny (França).

 Grandes progressos em pouco tempo

Partiu, então, à procura da solidão nas montanhas, estimulado pela graça de Deus que lhe sussurrava no fundo da alma: “Felizes os eremitas que se afastam do mundo e se isolam nessas solidões onde não são escravizados pelos maus costumes e pelos maus exemplos!” Encontrando um mosteiro beneditino, pediu para ser recebido ali. O superior, porém, receando uma reação violenta do Duque, hesitou em aceitá-lo. Somente com a intervenção do Arcebispo de Ravena, que serviu de intermediário, o jovem conseguiu ser admitido.

Nesse convento o novo monge passou três anos dedicados à oração e à penitência. Por serem relaxados, os outros religiosos sentiam-se censurados pelo grande fervor do recém-chegado e acabaram por pedir ao superior que o afastasse dali. São Romualdo vai descobrir gradualmente ao longo desses  anos, sua verdadeira vocação  de dedicar-se totalmente a Cristo, na escuta da sua Palavra, na purificação do coração e  na obediência ao Espírito  que guiava sua consciência. Vai descobrir ao mesmo tempo que a solidão não o afastava dos irmãos, da  vida da igreja e dos pobres, mas pelo contrário, o  enraizava numa comunhão e solidariedade mais profunda com eles.

Querendo seguir com coerência a vocação de “nada antepor ao amor de Cristo”, como tinha apreendido na Regra de São Bento recém professada, com a permissão do abade, deixa cedo o mosteiro em busca de condições mais favoráveis para realizar a sua profissão monástica. Romualdo resolveu, então, ir morar em Veneza, onde passou a levar uma vida de total isolamento. A Divina Providência pôs em seu caminho um eremita rigoroso e sumamente austero, Marino, sob cuja direção fez ele em pouco tempo grandes progressos na via da santidade.

Seguindo o ensinamento da Regra de São Bento, faz do amor ao Senhor e entre os irmãos, a sua regra suprema de vida (RB 4,21 e 72,11), solidariza-se com as dificuldades da vida da Igreja e da vida monástica do seu tempo e abraça os desafios pela sua renovação. Os discípulos chamarão este seu ensinamento de “relacionar-se segundo a lei suprema do amor fraterno” (privilégium amoris”).

São Romualdo anseia de todo coração à intimidade com Cristo na contemplação, alimentada pela meditação fiel da palavra, pela oração contínua dos salmos, pela eucaristia e por uma vida ascética de purificação interior. Ao mesmo tempo se empenha com todas as suas forças pela reforma espiritual da vida dos sacerdotes, dos monges e dos leigos, alternando vida solidária no eremitério e peregrinação incansável pelas estradas do mundo. Ele foi de verdade, “eremita e homem de igreja”!

São Romualdo não teve nenhuma pretensão de tornar-se “fundador” de uma “nova vida monástica”, embora estivesse profundamente enraizado na santa tradição. Mas irradiava espontaneamente, a fecundidade e a sabedoria de vida espiritual que o Espírito do Senhor alimentava nele e que o guiava para atualizar no seu tempo a herança espiritual dos padres do monaquismo. Este impulso profético e a criatividade para traduzir de maneira atual a antiga herança monástica conferia a São Romualdo e a seu estilo de vida, a força da “novidade”.

O próprio Espírito tornou São Romualdo “pai” e “mestre”, suscitando ao seu redor discípulos e discípulas e dando à sua vida grande eficácia para evangelizar os pobres. Reformou mosteiros existentes, fundou novos mosteiros e eremitérios, guiado pela preciosa virtude espiritual e humana da “discrição”. Nada de excessivo ou de extravagante na vida espiritual e no estilo de vida, quer na solidão do eremitério quer na vida comunitária do mosteiro: a Regra, a experiência e os ensinamentos dos padres, constituem o guia sempre válido para caminhar na via da perfeição.

Aos eremitas do seu tempo que ficavam expostos ao risco do individualismo, enquanto viviam sem regra de vida experimentada, nem vínculo de obediência, oferece o modelo do eremitério, onde a base da vida permanece a Regra de São Bento e a obediência ao prior e à fraternidade. Aos monges das grandes abadias, oneradas de tantos pesadelos organizativos, oferece a simplicidade da pequena comunidade do eremitério. O eremitério de São Romualdo se apresenta como uma síntese da vida cenobítica e da vida eremítica. Herdeiro no ocidente da antiga forma da “lavra” do monaquismo do oriente médio, quase uma pequena aldeia de monges animada por um pai espiritual, e que tem no edifício da igreja  o centro  espiritual e estrutural das habitações dos monges (celas).

Do Espírito Santo, São Romualdo recebeu a graça de uma profunda experiência mística na fiel oração cotidiana dos salmos e da missa, sendo introduzido pelo mesmo Espírito, ao silêncio da união interior com Deus e à inteligência espiritual das escrituras. (VR c, 31 e 50). A chamada “pequena regra de ouro”, deixada por São Romualdo ao discípulo João, é um espelho fiel da sua experiência  pessoal  e resume em maneira maravilhosa a pedagogia  da  oração apreendida por São Romualdo da tradição.

 “O Doge desapareceu!”

Junto com Marino, Romualdo conseguiu duas notáveis conversões. A do Duque de Ravena, seu próprio pai, que se arrependeu da antiga vida de pecados e foi fazer penitência num convento. E a do Doge (o supremo governante) de Veneza, cidade-república que viria a se tornar uma grande potência.

Numa ensolarada manhã de verão do ano de 978, ouviu-se nessa cidade um brado de alarme: “O Doge desapareceu!” Ninguém sabia do paradeiro de Pietro Urseolo. A notícia causou grande sensação, pois havia apenas dois anos o seu antecessor fora assassinado por conspiradores que destruíram também o Palácio Ducal.

Felizmente, porém, desta vez não se tratava de conspiração nem de homicídio. O nobre fugira à noite, acompanhado de Romualdo, numa longa viagem até o mosteiro beneditino de São Miguel de Cuxa, nos Pirineus, Catalunha, para dedicar-se à oração e à contemplação. Ali morreria como simples monge, após dez anos de vida austera e humilde. Desde 1731, é ele festejado pela Santa Igreja com o glorioso título de São Pedro Urseolo.

A fundação de Camaldoli

Após cinco anos na Catalunha, Romualdo voltou à Itália, percorrendo esse país durante trinta anos, fundando mosteiros e eremitérios.

No ano 1000, São Romualdo aceita o pedido de alguns dos discípulos e do imperador Oto III, de enviar alguns deles para a missão de evangelização na Polônia, evangelizando os pagãos  através do exemplo da comunidade monástica e pela pregação. Eles querem enfrentar esta missão por amor de Cristo, com o desejo de partilhar no martírio a paixão do próprio Cristo para serem partícipes também, da sua ressurreição. É o desejo do martírio junto com Cristo e para Cristo que mais os empurra a esta aventura, seguindo o exemplo dos apóstolos e dos monges britânicos e alemães que tinham evangelizado a Europa entre os séculos VII-IX.

Em 1003 os discípulos Bento e João e os três primeiros noviços poloneses morrem mártires, e no ano 1006 também o discípulo Bruno Bonifácio encontra a  mesma graça do martírio dos seus amigos e companheiros no discipulado de Romualdo e na evangelização. Ao saber da morte dos discípulos, São Romualdo decide partir ele mesmo, junto com outros discípulos, para uma missão na Hungria, impelido pelo mesmo desejo do martírio. Depois de uma longa viagem até os confins daquela nação, cai repetidas vezes doente e entendendo a mensagem da divina providência, volta para Itália. Mas, anota São Pedro Damião, “embora não tenha falecido por mãos dos perseguidores, não foi privado da palma dos mártires, ele que sempre foi inflamado pelo fogo do amor a Cristo”.

Desejando levar vida de isolamento completo, recebeu de um certo Maldolus algumas terras, que depois ficaram conhecidas como Campus Maldoli. Por volta de 1025, Romualdo e cinco companheiros construíram ali seis casinhas e uma capela, no meio das rudes montanhas.

Em 1027 São Romualdo funda o Sagrado eremitério de Camaldoli, na diocese de Arezzo na Itália em comunhão com o então bispo Tedaldo. É sua última fundação, na qual entrega aos poucos discípulos, a síntese do seu exemplo e de seu ensinamento: “permanecer na cela, jejuar e rezar”.

O prior Rodolfo, assim destaca, a exigência que os exercícios ascéticos do silêncio, do jejum e da oração sejam expressão de autêntica atividade interior:

“A meditação silenciosa acontece quando se unem indissoluvelmente, a regra do calar e a viva ocupação do meditar. Uma sem a outra não basta para a nossa salvação. Em verdade o silêncio sem meditação é morte, sepultura de um  homem ainda vivo. A meditação sem o silêncio é ineficaz, inútil. É como um homem agitando-se fechado em uma sepultura… Para que serve permanecer com a língua calada, se a vida  ou a consciência estão em tempestade?” (Rodulfo II, – ano 1180 –  “Consuetudo Camaldulensis- LER”, 1-3; 9).

Em cada casa vivia um eremita em completo silêncio e isolamento, rezando, meditando, oferecendo sacrifícios pela conversão dos pecadores e pela vinda do Reino de Deus. E assim continuou ao longo dos séculos. Hoje são ao todo vinte casas simples enfileiradas nos dois lados de uma estreita rua, cada uma delas comportando uma exígua capela, uma biblioteca com escrivaninha, uma cama e uma oficina para trabalhos manuais. Todas são desprovidas de conforto, mas muito carregadas de simbolismo e de graças!

O mosteiro

A pequena distância do eremitério, São Romualdo fez construir um edifício destinado a servir de hospedagem, enfermaria e intendência, a fim de que a vida contemplativa dos eremitas não fosse perturbada por nenhuma preocupação de ordem material.

Para alcançar o objetivo de um autêntico amadurecimento humano e espiritual para viver as ricas potencialidades da vida no eremitério, outro prior Rodolfo,  quarto sucessor de São Romualdo, deu plena estrutura de mosteiro à hospedaria  de Fonte Bom, dois quilômetros abaixo do eremitério, para formar os candidatos à vida eremítica. Assim Camaldoli, com a comunidade formada por vida cenobítica e vida eremítica, torna-se o modelo de uma tradição espiritual herdada de São Romualdo e que permaneceu ao longo de dez séculos, até o presente.

Hoje, Camaldoli abriga 35 religiosos: 15 no mosteiro e 20 no eremitério. Os camaldolenses têm comunidades também na Califórnia (Estados Unidos), Banda Aceh (Indonésia) e Mogi das Cruzes (São Paulo, Brasil).

Camaldoli foi a última fundação de São Romualdo. Este homem de Deus, que desde a juventude não tivera outra aspiração senão a de viver isolado em alguma montanha, num íntimo convívio com seu Redentor, acabou levando durante meio século a vida de um “abade-itinerante”. Quando, terminada sua carreira nesta terra, foi receber no Céu a coroa da glória, havia ele reformado ou fundado cerca de 100 mosteiros e eremitérios, com a regra de São Bento, povoando-os de milhares de monges e eremitas encaminhados por ele nas vias da perfeição.

“Quem era São Romualdo, precisamente? Um monge, um eremita, um pregador, um reformador, um missionário, um profeta? Tudo isso duma vez. Romualdo não é absolutamente classificável, bem como também os mais típicos dos padres do deserto, mestres dele, seus amigos e modelos, dos quais ele herdou a graça específica” (P. L.A.Lassus).

Comunhão e complementariedade  entre  vida comum no mosteiro e  vida solitária no eremitério e abertura à missão em suas várias formas por amor de Cristo, constituem a preciosa  herança recebida de São Romualdo e dos seus discípulos, que a  milenar tradição de Camaldoli guarda até hoje.

Morreu santamente numa pequena cela do eremitério de Val-di-Castro, no dia 19 de junho de 1027, sendo canonizado em 1595.

Reflexão

O silêncio e a contemplação, eis a essência de uma vida verdadeiramente voltada a louvar e adorar AQUELE QUE É, QUE FOI E SERÁ O DEUS DE NOSSAS VIDAS. O mundo de hoje não se recolhe no silêncio, se afunda na agitação, na gritaria e nas desordens da violência sem medidas. Muito menos ainda, não medita um segundo sequer NAQUELE QUE O CRIOU, ao contrário o ignora cada vez mais. Peçamos a intercessão do grande São Romualdo, para que seu exemplo de vida nos faça meditar naquilo que fomos criados: SERVIR E AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS. São Romualdo, rogai por nós. Amém

Fonte: http://www.acnsf.org.br/article/8324/Sao-Romualdo–Subindo-a-montanha-da contemplacao.html;

http://www.camaldolense.org.br/sãoromualdo.htm

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