Beata Mariam de Jesus Crucificado

O Beato João Paulo II beatificou Mariam Baouardi, que havia adotado o nome religioso de Irmã Mariam de Jesus Crucificado (1846-1878). Ele a descreveu assim: “A pequena Mariam foi dotada de um interior extremamente límpido, uma viva inteligência natural e aquela imaginação poética que caracteriza os povos semitas… Graças a suas virtudes eminentes, ela foi preenchida com o conhecimento do mistério trinitário… Seu exemplo vale não apenas para seu povo (da Galiléia), mas para o mundo inteiro”.

Hoje muita gente sabe que esta humilde mulher do Oriente foi cumulada de um grande número de carismas, frequentemente entre os mais surpreendentes (visões, êxtases, profecias, curas, bilocações, transverberação* e etc…). Evidentemente não é nestas coisas extraordinárias que deve ser imitada, mas em sua maneira de se portar em relação a elas, uma maneira totalmente mariana, vendo sempre em tudo o prazer do seu Senhor.

Balizas de uma vida

Décima terceira filha de uma família de catorze crianças, Mariam nasceu em 5 de janeiro de 1846 na vila de Abellin, ao sul do Líbano (20km a noroeste de Nazaré). Seus pais eram humildes e fervorosos católicos de rito greco-melquita. No seu nascimento, seus irmãos mais velhos estavam todos, infelizmente, já mortos. A infelicidade continuava a fustigar a família, pois ela ficou órfã desde a idade de três anos, ficando sozinha com Paul, seu irmãozinho. Seu irmão foi adotado por uma tia materna e ela mesma foi adotada por um tio paterno. Apesar de seu desejo, as duas crianças nunca mais se viram nesta terra.

De seus anos de infância na Galiléia, guarda na memória, o maravilhar-se diante da beleza da Criação, da luz, das paisagens de onde tudo lhe fala de Deus e do sentimento, muito forte, de que “tudo passa”.

Uma experiência de criança é decisiva para sua vida futura: brinca com dois pequenos passarinhos e quer dar-lhe um banho… mas eles não resistem e morrem entre suas mãos. Triste, ouve então interiormente estas palavras: “Vês? É assim que tudo passa, mas se queres dar-me teu coração, Eu ficarei para sempre contigo”. Aos 8 anos faz sua primeira comunhão.

Em 1854/55, a família paterna partiu para Alexandria. Mariam não foi mandada para a escola, mas somente educada nas tarefas domésticas. Em 1858, com a idade de 12 anos, ousou opor-se ao projeto de casamento concebido para ela por seu tio. Este, louco de raiva, passou a tratá-la como a última das escravas.

Três meses mais tarde, Mariam começa a procurar seu irmão e vem pedir ajuda a um antigo trabalhador doméstico da família, muçulmano que logo a quis converter à força. Diante de sua recusa, o homem fica furioso, toma sua cimitarra e corta profundamente sua garganta. Pensando estar morta, ele a envolveu em um grande véu e foi jogá-la em uma rua obscura. Uma religiosa vestida de azul a encontrou, levou-a a uma gruta e lá pôs-se a tratar dela com uma ciência e um amor fora do comum. Quando ela recuperou um pouco a saúde, a dama de azul lhe falou das realidades do céu, de seu curto futuro na terra, depois a conduziu a uma Igreja, onde a deixou definitivamente.

De 1859 a 1865, Mariam trabalhou como servente aqui e ali, peregrinando de cidade em cidade, depois de país em país. Trabalhando em Marseille havia dois anos, teve a felicidade de ser admitida, em 1865, como postulante ao noviciado das Irmãs de São José da Aparição. Em dois de maio do mesmo ano, ela recebeu a estigmatização visível, o que muito incomodou suas superioras e as convenceu de que ela deveria ser orientada, o quanto antes, para uma vocação puramente contemplativa e escondida. Em junho de 1867, ela seguiu sua mestra de noviças ao Carmelo de Pau, na França, onde tomou o nome de Irmã Mariam de Jesus Crucificado. Em 24 de maio de 1868, ela recebeu, como Santa Teresa d’Ávila, a graça da transverberação do coração.

A fundação do Carmelo de Mangalore na Índia

Em 1870, parte com um pequeno grupo de irmãs para fundar o primeiro mosteiro de carmelitas na Índia, em Mangalore. A viagem de barco foi uma aventura e três religiosas morrem antes de chegarem. De todos modos, são enviados reforços, e em finais de 1870 pode-se iniciar a vida claustral. Suas experiências extraordinárias continuam sem impedir-lhe a realização dos trabalhos mais pesados e de dar atenção aos problemas inerentes a uma nova fundação. Durante seus êxtases, as irmãs às vezes podiam ver seu rosto resplandecente na cozinha ou noutro local. Participa em espírito nos acontecimentos da igreja, por exemplo, nas perseguições na China e também parece ser possuída exteriormente pelo demônio, fazendo-lhe viver terríveis tormentos e combates. Foi o começo de muitas incompreensões na sua comunidade, onde duvidaram da autenticidade do que ela vivia. Não obstante, pôde emitir seus votos no final do noviciado a 21 de Novembro de 1871; mas as tensões criadas em seu redor acabaram por provocar o seu regresso ao Carmelo de Pau em 1872.

A fundação do Carmelo de Belém

Sua fama de santidade começa a se espalhar em toda a diocese: padres, bispos, sábios ou vizinhos camponeses vinham consultá-la. Para todos ela tinha uma palavra, um conselho bem simples para dar. Sua grande recomendação frequentemente se resumia nestas palavras, que ela mesma vivia: “Desconfiem dos caminhos extraordinários e dos carismas que atraem para vocês a atenção dos outros, mas também a dos demônios. Cultivem virtudes escondidas como a Sagrada Família de Nazaré. Tenham sempre o gosto pelas coisas simples, justas e puras. O Espírito Santo ama repousar sobre corações retos e espíritos humilhados!”.

Pouco depois de seu regresso de Mangalore, ela começa a falar da fundação de um Carmelo em Belém. Os obstáculos são numerosos, mas dissipam-se progressivamente de maneira inesperada. Por fim a autorização é dada por Roma e a 20 de Agosto de 1875 um pequeno grupo de carmelitas embarca para esta aventura. O Senhor mesmo guia Mariam na escolha do local e na forma de construção do novo Carmelo. Como ela é a única que fala árabe, encarrega-se particularmente de seguir os trabalhos, “imersa na areia e na cal”. A comunidade instalar-se-á no dia 21 de Novembro de 1876, enquanto que certos trabalhos continuam.

Prepara também a fundação de um Carmelo em Nazaré, viajando até lá para comprar o terreno, em Agosto de 1878. Durante essa viagem é lhe revelado por Deus o lugar de Emaús.

De volta a Belém, retoma a vigilância dos trabalhos debaixo de um calor sufocante. Quando leva algo para beber aos trabalhadores, Mariam cai de uma escada e parte um braço. A gangrena vai avançar muito rapidamente e morre poucos dias depois, a 26 de agosto de 1878, aos 32 anos. Sua última palavra foi: “Misericórdia!”. Ela é beatificada a 13 de Novembro de 1983 pelo Papa João Paulo II.

Mariam e os carismas

Irmã Mariam suportava seus carismas como uma cruz, não lhes atribuindo qualquer importância, submetendo tudo à vontade de Deus e a de seus superiores. A uma delas confidenciou um dia: “Eu lamento de toda minha alma as pessoas conduzidas por caminhos extraordinários. A mim parece que andam sobre uma prancha colocada sobre as águas!”. Em 1868, a Madre Priora do Carmelo de Pau confessou-lhe que não reconhecia em si qualquer iluminação particular para guiar religiosas “privilegiadas com grandes carismas”. Irmã Mariam assegurou-lhe imediatamente, durante um êxtase: “Não tenha medo! Quando uma irmã vier dizer, por exemplo: ‘Minha Madre, durante a oração eu vi Jesus e a Virgem Maria, que me disseram tais e tais coisas’, responda a esta irmã: ‘Minha filha, aproveite bem do que você viu e escutou. Tão grande graça deve produzir muitos frutos. É por eles que você distinguirá se se trata de realidade ou de ilusão’. Se a irmã se retira contente depois que a senhora falar-lhe assim, tenha certeza: foi o céu quem lhe falou, mas se ela se retira triste, saiba que é obra do espírito do mal”.

Podemos percebê-la integralmente no caso seguinte, bem revelador de seu alto grau de discernimento espiritual. Em 1874, um bispo estrangeiro veio encontrá-la no parlatório do Carmelo de Pau e lhe fez este relato: “Minha irmã, em tal cidade da Itália eu pude contemplar maravilhas com uma mulher que tem êxtases. Esta mulher, algumas vezes, recebe uma hóstia mística das mãos de um anjo. Escorre sangue de seu coração e se formam figuras, como por exemplo uma coroa de espinhos. Você poderia, eu peço, dar sua própria opinião acerca de tudo isso?”. Inspirada, a estigmatizada que conversava com os anjos, reagiu com prudência e se resguardou: ela pediu ao prelado alguns dias para refletir. Depois, disse-lhe: “Pedi a Nosso Senhor que me fizesse conhecer o que havia naquela pessoa. Ele me respondeu que, no começo, eram verdade as coisas extraordinárias, mas em seguida o diabo se misturou a elas. Atualmente tudo é demoníaco, até mesmo a comunhão mística. Entretanto, não vi que esta alma seja culpada nem mesmo afastada de Deus. Quanto ao senhor, Sr. Bispo, Jesus me encarregou de dizer-lhe: ‘Não se fixe no extraordinário! Se alguém diz que a Santa Virgem aparece aqui ou ali, não vá lá, nem se preocupe. Una-se somente à fé, à Igreja, ao Evangelho. Se, ao contrário, o senhor vai atrás do extraordinário, aqui ou ali, sua fé enfraquecerá. Eu digo isso ao senhor da parte do Senhor”. Este episódio é significativo sobre a maneira de agir dos grandes místicos: ao invés de empurrar os crentes para o extraordinário e para os sinais sensíveis, eles se esforçam por reavivar seu gosto pela vida de fé interior, pelas coisas simples e escondidas, como freqüentemente o são os verdadeiramente felizes e as santidades autênticas.

Sonhos e parábolas

Durante suas orações, Irmã Mariam era, algumas vezes, instruída por alguns tipos de sonhos, que se desenrolavam sob seus olhos como vivas parábolas evangélicas. Quando acontecia, ela pensava: “É, sem dúvida, fruto de minha imaginação: não vou me deter nelas”. Por felicidade, sua Madre superiora pôde perceber ou fazer perceber certo número de ensinamentos simbólicos. Eis um, por exemplo, que mostra a provação clássica da Noite Escura na vida espiritual: “Eu vi, disse ela, um jardim com numerosas roseiras floridas. Ao lado dessa massa, estava uma roseira ainda mais florida e mais bela que todo o resto. Um jardineiro veio – era certamente o Senhor – e transplantou esta roseira para uma parte não iluminada do jardim. O arbusto ficou privado do sol, de rosas e de alegria. Imediatamente seus ramos penderam, suas folhas amareleceram, suas flores murcharam; depois de algum tempo, poder-se-ia crer que estava quase morta. As outras roseiras disseram entre si: “Esta deve ser arrancada, porque agora está seca e como sem vida”. O mestre do jardim vem e interpela a massa florescente: “Vocês julgam pela aparência! Se vocês mesmo tivessem sido privadas de água e de sol, a este tempo vocês já estariam reduzidas a pó. Esperem e verão!”. Algum tempo mais tarde o jardineiro tira esta roseira de sua noite profunda e a irrigou. Rapidamente ela se pôs a florir mais bonita que nunca e seu perfume se espalhou por todo o jardim, o que alegrou a todos os habitantes e os fez dar glória a Deus”.

Irmã Mariam insistia muito na humildade, mas igualmente na caridade fraterna. Ela o vivia, naturalmente à sua maneira, bem oriental: “Quando você vê um rasgão no hábito de alguém, não o aumente, mas corte um pedaço de seu próprio hábito para recompor o hábito do outro. Não tenha medo de pegar, freqüente e generosamente, de você mesmo para fazer este serviço, mesmo se a nudez o espreita. Se você se despoja pelo outro, é o próprio Jesus quem o revestirá com a veste nupcial. Acima de tudo, não julguem e deixem todo julgamento para Deus. Vestindo sempre o manto branco da caridade, nossa roupa suja permanecerá recoberta”. Irmã Mariam estava, contudo, em boa escola, pois era frequentemente o próprio Jesus ou a Virgem Maria quem lhe conduzia pelo estreito sentido do Evangelho. Um dia em que estava em êxtase, exclamou: “Bem-aventurados aqueles que deram seu sangue por Deus!”, e Cristo respondeu: “Mais felizes ainda são aqueles que continuamente oferecem sua vida em sacrifício por amor a mim”.

Mariam e o Espírito Santo

Mariam, descobre-nos este mundo invisível tão perto de nós e que é todo misericórdia. Ela ensina-nos a investir toda a nossa vida “naquele que nunca passa”, o que realmente importa, Deus. A luta contra todas as forças do mal ainda está a decorrer. Beata Mariam é conhecida por muitos como “Patrona da Paz” para a Terra Santa, é para nós um estímulo deixar-nos transfigurar pelo Senhor a fim de converter-nos nós mesmos em artesãos desta transfiguração do mundo pela graça de Deus. Testemunho de um mundo já transfigurado, Mariam conduz-nos a esse primeiro dia da Criação, onde o Céu e a Terra ainda não foram separados, onde só há luz e trevas: esse dia Um, reflexo da Unidade divina, donde tudo resplandece desta Unidade.

E justamente, Mariam sente-se atraída de modo particular pelo Espírito Santo, este Espírito que pairava sobre as águas no principio da Criação. É este Espírito Santo que ela quer-nos entregar como herança, já que quando Ele vem tomar o lugar do nosso “eu” transfigura cada coisa, “cria de novo” (Isaías): “Dirigi-vos ao Espírito Santo que inspira tudo”.

Irmã Mariam tinha gosto pelas coisas simples. Como fiel discípula do profeta Elias, refugiado no topo do Monte Carmelo, ela sabia reconhecer a presença do Espírito divino na brisa suave, não necessariamente no desencadeamento de manifestações extraordinárias. Ela sabia que as melhores graças são as mais escondidas, porque elas atingem as raízes da fé e do amor sobrenatural. Em um tempo em que o Espírito Santo era o grande desconhecido na Igreja latina, esta humilde carmelita galiléia foi ao mesmo tempo testemunha de sua ação e missionária de seu culto. Para ela, não há oração válida sem que este Hóspede divino venha “de uma maneira ou de outra”. Em 18 de maio de 1874, ela escutou uma voz celeste que dizia:

“Se tu queres me conhecer e me seguir, invoca o Espírito Santo, que iluminou os discípulos e continua a iluminar todos aqueles que o invocam… Eu desejo ardentemente que os padres celebrem, a cada mês, uma missa em sua honra. Graças serão então derramadas sobre estes padres e sobre os fiéis que se unirem às suas orações. Eles terão mais luz e paz. Graças de cura lhes serão concedidas. Sua consciência se tornará mais delicada e receptiva às inspirações do alto”.

Concluindo, façamos nossa a oração seguinte, tornada célebre depois de um século e que foi inspirada à bem-aventurada irmãzinha durante um êxtase:

 

“Espírito Santo, inspire-me

Amor de Deus, consuma-me

Pelo verdadeiro caminho, conduza-me

Maria, minha mãe, olhe-me.

Com Jesus, abençoa-me

De todo mal, de toda ilusão, de todo perigo, preserve-me. Amém”.

Esta grande mulher viveu a todo momento da sua vida, provações cada uma mais pesada que a outra, que se não fosse por uma ação da Providência Divina, certamente sucumbiria. Que seu exemplo de humildade, simplicidade e coragem sejam inspiração para o mundo atual na luta contra o egoísmo, o orgulho e a falta de amor à Deus. Beata Mariam, rogai por nós. Amém.

Fonte:

http://reporterdecristo.com/irma-mariam-de-jesus-crucificado-a-carismatica

http://www.carmelitas.pt/site/santos/santos_ver.php?cod_santo=29

Grifos Nossos

*A transverberação é uma graça extraordinária que alguns santos como Santa Teresa de Jesus, São João da Cruz e São Pio de Pietrelcina receberam. O coração da pessoa escolhida por Deus é transpassado por uma flecha misteriosa ou experimentado como um dardo que ao penetrar deixa atrás de si uma ferida de amor que queima enquanto a alma é elevada aos níveis mais altos da contemplação do amor e da dor.
  1. Maria Teresa da Costa Coelho
    30/11/2012 às 20:38

    Gostaria de saber onde poderei adquirir a vida da Beata MARIAM DE BELÉM – ou BEATA MARIAM DE JESUS CRUXIFICADO.
    Obrigada.
    Maria Teresa Costa Coelho, rbp

  2. 23/07/2013 às 3:59

    Very nice post. I just stumbled upon your weblog and wanted to
    say that I have truly enjoyed browsing your blog posts. In any case
    I’ll be subscribing to your rss feed and I hope you write again very soon!

  3. 06/08/2013 às 6:18

    Wonderful blog! I found it while surfing around on Yahoo News.

    Do you have any tips on how to get listed in Yahoo News?
    I’ve been trying for a while but I never seem to get there! Thanks

  4. 26/08/2013 às 11:41

    This paragraph is genuinely a fastidious one it helps new net
    people, who are wishing for blogging.

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: