São Cesídio

Mártir da Eucaristia


Ao partir para a China, seu coração ardia do desejo de evangelizar. Não imaginava ele que sua vocação era a de conquistar almas pela efusão de seu sangue, e não pelo labor missionário.

Abriu os olhos para esta vida em 30 de agosto de 1873, na cidade italiana de Fossa, nos Abruzos. No próprio dia de seu nascimento foi regenerado pelas águas do batismo, recebendo o nome de Ângelo. Seus pais, Giovanni Giacomoantonio e Maria Loreta, camponeses, constituíam com os sete filhos uma família profundamente religiosa.

Ângelo formou-se, assim, num ambiente de trabalho e piedade. Nos intervalos dos pesados serviços do campo – cuidava do rebanho, carregava grossos feixes de lenha e pesados recipientes de leite -, era visto com freqüência rezando o Rosário, ajoelhado ante a imagem da Virgem Dolorosa, a cuja confraria pertenciam todos os homens de sua família. Demonstrava especial atração pelas peregrinações ao Santuário de Santo Ângelo, dos Frades Franciscanos, o qual sobressaía-se em meio de um maciço rochoso, proporcionando uma atmosfera de mística e santidade, notadamente pelo fato de ali terem vivido no séc. XV dois outros grandes filhos de São Francisco: São Bernardino e São João de Capistrano.

Vocação de missionário

Não é, pois, de admirar-se que quando, aos 16 anos, decidiu fazer-se religioso, tenha escolhido o Convento de Santo Ângelo. Foi admitido como postulante em 1889 e recebeu o hábito de noviço dois anos depois, adotando o nome de Cesídio. Ele resumiu seu programa de noviciado nestas três palavras: obediência, estudo, oração. Seus colegas de seminário o qualificaram como um homem “de gênio manso, amável com os companheiros, piedoso e cumpridor do dever, mais apreciando escutar do que falar, admirável pela sua austeridade”. Em 1892 fez os votos perpétuos e recebeu a ordenação sacerdotal cinco anos depois, em 11 de julho de 1897.

Vendo sua grande aptidão para o apostolado, os superiores o encaminharam ao convento de Capistrano, o qual nessa época dedicava-se de modo especial ao ministério da pregação, e, pouco depois, ao de San Martino dei Marsi. Neste último, sentiu na alma um tão forte chamado de Deus para ser missionário que escreveu imediatamente uma carta solicitando sua transferência para alguma terra de missões. Os superiores, entretanto, tinham outros planos e o enviaram a Roma, para aprofundar-se nos estudos teológicos. Como bom religioso, obedeceu. Mas não deixou de rezar à Rainha dos Apóstolos, pedindo-Lhe que removesse os obstáculos à sua partida.

Sua oração foi logo atendida: encontrou-se providencialmente com o Frei Luigi Sondini que, após 32 anos de trabalhos na China, tinha vindo à Itália para arregimentar sacerdotes jovens e dispostos às árduas atividades de missionário. Logo se apresentaram três, entre eles Frei Cesídio, o qual, entretanto, expôs-lhe a necessidade de obter o consentimento dos superiores. Frei Luigi a conseguiu, não sem dificuldades, pois o superior imediato de Frei Cesídio, nada contente de perder a colaboração de um subordinado valioso, negou-lhe a bênção na hora da partida: “Que Deus o abençoe, eu não o faço”.

Apenas dois ou três meses de missão

A amargura dessa inusitada despedida não arrefeceu o entusiasmo do neomissionário, que embarcou para a China em outubro de 1899. Nos primeiros dias de 1900, chegou com seus companheiros a Heng-tciou-fu, onde foram recebidos festivamente pelo bispo Dom Antonino Fantosati e uma pequena multidão de fiéis.

Ali deteve-se Frei Cesídio apenas dois meses. Tal era a necessidade de missionários que, embora ele não soubesse falar bem a língua chinesa, o bispo o enviou para Tong-siong, pequena comunidade de 500 cristãos. Sua primeira preocupação foi preparar os catecúmenos para a Páscoa; em poucos dias, trinta adultos pediram o Batismo. Seu ardor missionário refletia-se nestas palavras: “Poder ser uma tocha que comunica luz aos outros, luz de doutrina, luz dos bons exemplos, luz da santidade… Miserável de mim, se não usar bem os talentos recebidos de Deus!” Manifestava somente um desejo: evangelizar, conquistar almas para a Igreja.

Contudo, outros eram os desígnios da Divina Providência: esse herói da fé devia conquistar almas muito mais pela efusão de seu próprio sangue do que pelos seus dois ou três meses de atividades missionárias.

Preferiu salvar a Eucaristia a salvar a própria vida

Do ponto de vista religioso, a situação na China vinha há anos tornando-se cada dia mais confusa. Desde as últimas seis décadas, vinha-se acumulando no país o ódio contra os estrangeiros, em decorrência da “Guerra do Ópio” e de “tratados comerciais” impostos à força pelas chamadas grandes potências européias. Explorando esse ódio que, de si, nada tinha a ver com a religião, os inimigos da Igreja conseguiram desencadear uma perseguição que custou a vida de milhares de cristãos, somente nas províncias de Shan-si e Hu-nan. Entre esses contam-se vários bispos, numerosos sacerdotes e freiras, além de simples leigos, europeus e chineses.

Começou-se, por meio de calúnias, a instilar no povo um acentuado sentimento anticristão. Atribuíam-se aos católicos todos os males da época, mesmo os decorrentes de fatores naturais inevitáveis, como a seca e as inundações. O ato determinante da carnificina foi um decreto da Imperatriz Tzezi, em 1º de julho de 1900, no qual se afirmava, em síntese, que havia passado já o tempo das boas relações com “os missionários europeus e seus cristãos”; que os missionários seriam expulsos e os católicos chineses obrigados a apostatar, sob pena de morte.

Ante a iminência de estourar a perseguição sangrenta, Frei Cesídio decidiu ir pedir orientação ao bispo. Quando chegou à sede episcopal, Dom Fantosati estava ausente. Procurou, então, expor o problema ao vigário, Pe. Quirino Hifling. Foram interrompidos por gritos furiosos do lado de fora: “Morte! Morte aos europeus!” Alguns facínoras atearam fogo à igreja e invadiram a casa da missão. Em um primeiro momento, detiveram-se atemorizados ante os dois sacerdotes, e estes aproveitaram para se refugiar no presbitério. Alguns cristãos chineses conseguiram, num golpe audaz, pôr a salvo o Pe. Quirino. Frei Cesídio, porém, havia desaparecido. O que teria acontecido com ele?

Cheio de zelo pela Sagrada Eucaristia, não podia tolerar que ela fosse profanada. Assim, aproveitou aqueles preciosos minutos nos quais poderia escapar para consumir todas as partículas consagradas. Ali mesmo, ante o altar, foi atacado a socos, pedradas e pauladas. Os assassinos arrastaram-no para fora, enrolaram- no em um tecido embebido de petróleo e o queimaram vivo. Restaram dele alguns pedaços de ossos que os cristãos se apressaram em recolher.

Prosseguiu assim, nessa fúria satânica, a perseguição. Três bispos, entre os quais Dom Antonini Fantosati, foram martirizados em meio a obscenidades indescritíveis. Sete freiras franciscanas, Missionárias de Maria, morreram cantando com voz firme o “Te Deum”. Não menos edificantes foram os martírios dos sacerdotes, religiosas e leigos de etnia chinesa, os quais, postos entre a alternativa de renegar a fé ou sofrer os piores suplícios, não hesitaram em testemunhar seu amor a Cristo Jesus pelo sacrifício da própria vida.

Na perseguição desencadeada em julho de 1900, foram martirizados milhares de cristãos na província de Hu-nan, entre  eles o  Bispo  de Heng-tciou-fu, numerosos sacerdotes e freiras, além de simples leigos, europeus e chineses

Todos eles fazem parte dos 120 mártires canonizados por João Paulo II em 1º de outubro de 2000.

Reflexão

Cada vez mais hoje vemos a Igreja ser perseguida e ultrajada. A onda avassaladora do pecado avança ferozmente contra os cristãos. Estamos à eminência de uma grande perseguição e, muito provavelmente, teremos inúmeros martírios. Estamos preparados? Que o Espírito Santo nos dê a mesma coragem dada a tantos mártires na História da Igreja, como São Cesídio, e nos prepare para a derradeira hora. São Cesídio, rogai por nós. Amém

Fonte

(Revista Arautos do Evangelho, Julho/2006, n. 55, p. 35 à 37

Grifos Nossos

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