Santa Isabel da Hungria

Nobreza e resignação heróica no infortúnio

Sublime equilíbrio da Igreja ante a miséria da lepra


Nos faustos da corte, piedade. Sob a calúnia e a perseguição, magnanimidade. Na opulência, caridade extremada. E, com a morte, a glória dos altares e da felicidade eterna

A vida de um santo é uma cruzada épica, em que ele põe todas as suas forças físicas e espirituais em ação. Quer se tenha convertido na maturidade, quer tenha sido favorecido desde pequeno com grandes dons, a partir do momento em que decidiu aprimorar-se nas virtudes e combater seus defeitos para alcançar a santidade o aspecto heróico passará a ser uma característica predominante em sua vida. Tal aspecto pode manifestar-se, às vezes, de forma surpreendente.

A Santa Igreja, Mãe e Mestra dos homens, sempre primou pelo perfeito equilíbrio no tocante ao atendimento de seus filhos. A uns, procura levar à santidade pela justa utilização de seus muitos dons espirituais e materiais. A outros, chama aos mais elevados graus de virtude pela perfeita aceitação resignada de suas carências, muitas vezes dolorosíssimas.

Mãe amorosa de todos os seus filhos, procura no entanto prodigalizar uma atenção mais cuidadosa aos que mais necessitam. Eis o comovedor exemplo dado por uma santa

Santa Isabel da Hungria (1207-1231) passou voluntariamente de um estado a outro e foi incontestavelmente uma “mulher forte” de que nos fala a Sagrada Escritura (Pr 31,10-29). Filha de André II, rei da Hungria, casou-se com o duque da Turíngia. Viúva aos vinte anos, renunciou a vantajosas segundas núpcias, querendo servir a Deus praticando a pobreza. Não satisfeita com os sacrifícios que se impôs nesta vida, resolveu galgar um grau a mais na escola da perfeição e passou a tratar dos leprosos.

Infância

Quando Santa Isabel da Hungria nasceu, em 1207, cessaram todas as guerras em seu país natal. Seu pai, o Rei André II, da dinastia dos Arpades, e sua mãe, Gertrudes de Meran, descendente direta de Carlos Magno, tinham motivos para se alegrar por esta feliz coincidência.

Quatro anos depois, o Duque Herman, da Turíngia, enviou magnífica embaixada à Hungria para solicitar ao Rei a mão de Isabel para seu filho Luís, de onze anos.

Isabel passou a viver então na corte da Turíngia, onde, à medida que crescia, ia manifestando sua profunda piedade, que caracterizava todos os seus atos. Quando atingiu a adolescência, foi alvo de críticas da parte de nobres da corte, que a acusaram de ser muito religiosa, reservada, sem os traços mundanos que eles julgavam necessários para uma duquesa. Também diziam que ela iria arruinar o reino com as esmolas que dava.

Aos 13 anos, casou-se com Luís. Este tinha todas as qualidades de um autêntico cruzado, um verdadeiro defensor da Igreja. Em 1227 partiu para a Terra Santa como cruzado, com a elite de sua cavalaria, viagem da qual não haveria de voltar, pois morreu na mesma.

Hospedada no lugar dos porcos

Viúva aos 20 anos, Isabel viu então a perseguição abater-se sobre ela e seus quatro filhos, um dos quais recém-nascido. O Duque Henrique, seu cunhado, que jurara protegê-la, expulsou-a do palácio com seus filhos e duas damas de honra, que lhe permaneceram fiéis. E proibiu à população recebê-la em suas casas.

Assim, em pleno inverno, Isabel viu-se obrigada a andar pelas ruas e bater de porta em porta, na esperança de que alguma alma caridosa se dispusesse a recebê-la. Só conseguiu entrar numa estalagem, onde o dono lhe destinou o lugar onde estavam os porcos, que foram removidos para ali ficar com seus filhos.

No dia seguinte vagueou desamparada pela mesma cidade onde tantas pessoas se tinham beneficiado das esmolas que distribuíra com a prodigalidade que lhe era peculiar. Finalmente um padre, pobre também, resolve acolhê-la e dar-lhe certa proteção. Para que os filhos não morressem de fome, é obrigada a aceitar o conselho de deixá-los em mãos de outras pessoas.

Aparições do Redentor, de Nossa senhora e de São João Batista

Em sua vida de miséria e desamparo, Isabel sofreu muitas humilhações, tantas vezes vindas daquelas mesmas pessoas a quem muito tinha ajudado quando estavam necessitadas. Mas Nosso Senhor Jesus Cristo, que a ninguém esquece, aparecia para consolá-la em suas aflições. São João Batista vinha confessá-la, e Nossa Senhora muitas vezes a visitava para a instruir, esclarecer e fortificar. Foi nessa ocasião que decidiu viver apenas para Deus.

Tendo chegado aos ouvidos de seus parentes, na Hungria, as provações por que passava, recebeu ela de seu tio, o Bispo-Príncipe de Bamberg, um castelo à altura de sua posição.

Além disso, os vassalos de seu finado marido, o Príncipe Luís, ao voltarem da Cruzada, dirigiram palavras duras ao usurpador, acusando-o de ter ofendido a Deus e desonrado o Ducado da Turíngia.

Isabel foi então reconduzida aos seus domínios, onde passou a exercer a caridade como desejava; e para melhor fazê-lo, decidiu recolher-se como terceira franciscana.

Virtude heróica: exagero para alguns

Nesta situação, entretinha-se fiando a lã para dá-la aos pobres. Sua paciência e caridade não tinham limites. Nada a irritava ou descontentava. No atendimento aos doentes, nunca se viu tão maravilhoso triunfo sobre as repugnâncias dos sentidos. Era de espantar ver como a filha de um rei e viúva de um duque tratava os indigentes mais miseráveis. Até pessoas piedosas julgavam que ela exagerava em seus cuidados.

Seu pai, ao saber como vivia, enviou-lhe mensageiros para tentar retirá-la desse “estado miserável”. Ela lhes respondeu que, vivendo assim, era mais feliz que seu pai em sua pompa real. E retomou serenamente seu trabalho de tecer a lã.

Ela sabia unir, com rara felicidade, a vida ativa à contemplativa. Apesar das fatigantes obras de misericórdia a que se dedicava, sempre encontrava tempo para passar longas horas na oração e na meditação.

Era incansável na distribuição de benefícios materiais e espirituais. A um surdo-mudo ordenou, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dissesse de onde vinha; ao que ele imediatamente obedeceu, contando sua história. Do mesmo modo, cegos, possessos e aleijados eram curados.

Em seu livro História de Santa Isabel da Hungria, Charles de Montalembert, célebre escritor francês do século XIX, traçou um quadro pungente da postura sumamente materna e compassiva da Igreja Católica face à doença mais temida e repugnante, que foi a lepra.

Reproduzimos abaixo, para edificação dos leitores, a sua descrição entremeada de realismo e compaixão cristã.

Os leprosos eram continuamente objeto da predileção de Santa Isabel da Hungria, e de algum modo até de sua inveja, pois a lepra era, entre todas as misérias humanas, aquela que melhor podia desapegar da vida suas vítimas. Frei Gerardo, Provincial dos franciscanos da Alemanha, veio um dia visitá-la. E ela pôs-se a falar longamente sobre a santa pobreza, e pelo fim da conversa exclamou: Ah! meu Pai, o que eu quereria antes de tudo, e do fundo do meu coração, seria ser tratada em todas as coisas como uma leprosa qualquer. Quisera que se fizesse para mim, como se faz para essa pobre gente, uma pequena choupana de palha e feno, e que se pendurasse diante da porta um pano, para prevenir os transeuntes, e uma caixa, para que nela se pudesse colocar alguma esmola”.

Representantes do peso das dores humanas

Seja-nos permitido, para explicar essas prodigiosas palavras da santa, introduzir aqui em nossa narração alguns detalhes sobre o modo pelo qual a lepra, e os desafortunados por ela atingidos, foram considerados durante os séculos católicos.

Naqueles tempos de fé universal, a religião podia lutar de frente contra todos os males da sociedade, da qual ela era a soberana absoluta; e àquela triste miséria suprema ela opunha todas as mitigações que a fé e a piedade sabem gerar nas almas cristãs. Não podendo extinguir os deploráveis resultados materiais do mal, ela sabia pelo menos acabar com a reprovação moral que podia prender-se àquelas infelizes vítimas; ela as revestia de uma espécie de sagração piedosa e as constituía como as representantes e pontífices do peso das dores humanas que Jesus Cristo viera carregar, e que os filhos de sua Igreja têm como primeiro dever abrandar em seus irmãos. A lepra tinha, pois, naquela época, qualquer coisa de sagrado aos olhos da Igreja e dos fiéis: era um dom de Deus, uma distinção especial, uma expressão, por assim dizer, da atenção divina.

 “Morra para o mundo e renasça para Deus!”

Os anais da Normandia (França) contam que um cavaleiro de muito ilustre linhagem, Raoultz Fitz-Giroie, um dos valentes do tempo de Guilherme o Conquistador, tendo-se tornado monge, pediu humildemente a Deus, como uma graça particular, ser atingido por uma lepra incurável, a fim de resgatar assim seus pecados. E foi atendido. A mão de Deus, do Deus sempre justo e misericordioso, havia tocado um cristão, o havia atingido de uma maneira misteriosa e inacessível para a ciência humana; desde então havia alguma coisa de venerável em seu mal. A soledade, a reflexão, o retiro junto apenas de Deus, tornavam-se uma necessidade para o leproso; mas o amor e as preces de seus irmãos o seguiam em seu isolamento.

A Igreja soube conciliar a mais terna solicitude para com esses rebentos desafortunados de seu seio com as medidas exigidas pela saúde de todos para impedir a extensão do contágio. Quiçá não haja em sua Liturgia nada de mais tocante, e ao mesmo tempo de mais solene, do que o cerimonial denominado separatio leprosorum (separação dos leprosos), com o qual procedia-se ao afastamento daquele que Deus havia atingido, nos povoados onde não havia hospital especialmente consagrado aos leprosos. Celebrava-se na sua presença a Missa de defuntos, após terem sido benzidos todos os utensílios que lhe deveriam servir na sua solidão; e depois que cada assistente lhe tivesse dado sua esmola, o Clero, precedido pela cruz e acompanhado por todos os fiéis, conduzia-o a uma cabana isolada que lhe era designada por moradia. Sobre o telhado dessa choupana o padre colocava terra do cemitério, dizendo:

– Sis mortuus mundo, vivens iterum Deo! – Morra para o mundo, e renasça para Deus!

O padre lhe dirigia a seguir um sermão consolador, no qual lhe fazia entrever as alegrias do Paraíso e sua comunhão espiritual com a Igreja, de cujas preces ele se beneficiava em sua solidão mais ainda do que anteriormente. Depois ele plantava uma cruz de madeira diante da porta da cabana, aí colocava uma caixa para receber a esmola dos transeuntes, e todos se afastavam. Apenas na Páscoa, os leprosos podiam sair de seus “túmulos”, como o próprio Cristo, e entrar por alguns dias nas cidades e aldeias para participar das alegrias universais da Cristandade. Quando morriam assim isolados, se celebravam por eles os funerais com o ofício dos Confessores não pontífices.

“É o ósculo dos leprosos que cura minha alma”

O pensamento da Igreja tinha sido compreendido por todos os seus filhos. Os leprosos recebiam do povo os nomes mais doces e mais consoladores: os “doentes de Deus”, os “queridos pobres de Deus”, os “bons”. Gostava-se de lembrar que o próprio Jesus Cristo tinha sido designado pelo Espírito Santo como um leproso: “E nós O reputávamos como um leproso” (Is 53,4); Ele tinha um leproso como anfitrião quando Maria Madalena veio Lhe ungir os pés; Ele com frequência tomara essa forma para aparecer a seus santos sobre a terra. Acresce que foi principalmente depois das peregrinações na Terra Santa e das Cruzadas que a lepra se tinha espalhado pela Europa; e essa origem aumentava seu caráter sagrado. Uma ordem de cavalaria, a de São Lázaro, fora fundada em Jerusalém para se consagrar exclusivamente ao cuidado dos leprosos, e tinha um leproso como superior; e uma ordem feminina devotara-se ao mesmo fim na mesma cidade, no hospital Saint-Jean l’Aumônier.

Certa vez em que o Bispo Hugo de Lincoln – monge cartuxo – celebrava a Missa, admitiu os leprosos ao ósculo da paz; e como seu chanceler lhe lembrasse que São Martinho curava os leprosos beijando-os, o bispo respondeu: “Sim, o ósculo de São Martinho curava a carne dos leprosos; mas a mim é o ósculo dos leprosos que cura minha alma”. Entre os reis e os grandes da terra, Santa Isabel não foi a única a honrar Cristo nos sucessores de Lázaro. Príncipes ilustres e poderosos consideravam esse dever como uma das prerrogativas de suas coroas. Roberto, rei da França, visitava sem cessar seus hospitais. São Luís tratava-os com uma amizade toda fraterna, visitando-os no Hospital des Quatre-Temps, e osculava suas chagas. Henrique III, rei da Inglaterra, fazia o mesmo.

Empenhavam-se em prestar aos leprosos os mais humildes serviços

A condessa Sibila de Flandres, tendo acompanhado seu marido Teodorico a Jerusalém, em 1156, passava no hospital de Saint-Jean l’Aumônier, para aí cuidar dos leprosos, o tempo que o conde empregava em combater os infiéis. Um dia em que ela lavava as chagas desses infortunados, sentiu, como Santa Isabel, seu coração sublevar-se contra tão repugnante ocupação; mas, logo em seguida, para se castigar, tomou na boca a água da qual acabava de se servir e a engoliu, dizendo a seu coração: “É preciso que aprendas a servir a Deus nesses pobres; eis teu ofício, mesmo que arrebentes”.

Mas, sobretudo, foram os santos da Idade Média que testemunharam aos leprosos um devotamento sublime. Santa Catarina de Sena teve suas mãos atingidas pela lepra ao cuidar de uma velha leprosa que ela própria quis amortalhar e enterrar; mas, depois de ter assim perseverado até o fim no sacrifício, viu suas mãos tornarem-se brancas e puras como as de um recém-nascido, e uma suave luz sair das partes que tinham sido mais atacadas. São Francisco de Assis e Santa Clara, sua nobre seguidora, Santa Odília da Alsácia, Santa Judith da Polônia, Santo Edmundo de Canterbury, e mais tarde São Francisco Xavier e Santa Joana de Chantal compraziam-se em proporcionar aos leprosos os mais humildes serviços. Frequentemente suas preces obtinham para eles uma cura instantânea.

É no seio dessa gloriosa companhia que Santa Isabel ocupava já lugar pelos anseios invencíveis de seu coração para o Deus que ela sempre via na pessoa dos pobres.

Aqui termina o trecho do literato historiador. Como faz bem ouvir um testemunho tão cogente e sublime do modo como, em todos os tempos, a Igreja viu e tratou seus filhos mais desafortunados! Ela é Mãe mesmo!

Milagres atestam santidade antes e depois da morte

Tinha apenas 24 anos quando Nosso Senhor chamou-a a Si para premiá-la com a glória celestial. Na véspera da morte, sua fisionomia transformou-se. Seu olhar tornou-se resplandecente, manifestando uma alegria e felicidade que cresciam a cada instante. Quando exalou seu último suspiro, um delicioso perfume se espalhou pelo ar, ao mesmo tempo que um coro de vozes do Céu se fez ouvir em cânticos de júbilo. Era o dia 19 de Novembro de 1231.

A notícia de sua morte atraiu verdadeira multidão que desejava contemplá-la pela última vez antes de seu sepultamento. Eram pessoas de todas as condições sociais, que não se constrangiam em arrancar-lhe pedaços das vestes, mechas de cabelo, fragmentos de unhas, etc, guardando-os piedosamente como relíquias.

Para atender a todos foi necessário prolongar a exposição do corpo por quatro dias, durante os quais seu rosto se conservava como o de uma pessoa viva. Na noite que precedeu o enterro, o teto da Igreja se encheu de pássaros desconhecidos, que cantavam melodias inefáveis.

Após sua morte verificaram-se muitos milagres atribuídos à sua intercessão, como a cura de cegos, surdos, leprosos, coxos, paralíticos, etc. Isto suscitou um grande movimento popular pela sua canonização, o que muito contribuiu para que o Papa Gregório IX a elevasse sem demora à honra dos altares, fato ocorrido em tocante cerimônia no dia de Pentecostes, 26 de maio de 1235, decorridos apenas três anos e meio de seu falecimento.

Poucos dias depois, em 1º de junho do mesmo ano, o Papa publicou a bula de canonização, que foi logo enviada aos Príncipes e aos Bispos de toda a Igreja.

Reflexão

Com as palavras do Papa Bento XVI, refletimos: “Queridos irmãos e irmãs, na figura de Santa Isabel, vemos como a fé e a amizade com Cristo criam o sentido da justiça, da igualdade de todos, dos direitos dos demais, e criam o amor e a caridade. E dessa caridade nasce a esperança, a certeza de que somos amados por Cristo e de que o amor de Cristo nos espera e nos torna, assim, capazes de o imitar e ver nos demais.

Santa Isabel convida-nos a redescobrir Cristo, a amá-lo, a ter fé e, assim, a encontrarmos a verdadeira justiça e o amor; e também a alegria de que um dia estaremos submersos no amor divino, no gozo da eternidade com Deus”. Santa Isabel da Hungria, rogai por nós. Amém!

Fonte:

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/C09B9EEC-3048-560B-1CC6C0842B0BD36D/mes/Novembro1996

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/audiences/2010/documents/hf_ben-xvi_aud_20101020_po.html

Revista Arautos do Evangelho, Nov/2005, n. 47, p. 36 à 38

Grifos Nossos

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