Santa Margarida Maria Alacoque

A confidente do Coração de Jesus

 

No século XVII, o jansenismo — espécie de protestantismo mitigado, infiltrado dentro da Igreja — causava grandes danos entre os fiéis. Destruía nas almas a noção da misericórdia de Deus e da confiança filial que devemos ter em relação ao Pai Celeste, inculcando um temor desprovido de amor, inclinando os católicos a fugir dos Sacramentos, sobretudo da Sagrada Eucaristia.

Foi então que Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu a Margarida Maria Alacoque, jovem religiosa da Ordem da Visitação, para transmitir sua mensagem de misericórdia e confiança, expressa no Coração humano e divino do Verbo Encarnado. O culto ao Sagrado Coração de Jesus obteve a partir de então grande impulso e alastrou-se por toda a Igreja. Infelizmente, com a descristianização geral, hoje essa devoção — aliás, como tantas outras — perdeu praticamente todo o seu sentido de adoração, reparação e petição, tão necessários nos nossos tempos.

A família de Santa Margarida Maria Alacoque

Margarida foi a quinta dos filhos de Cláudio Alacoque e de Felisberta Lamyn, e nasceu a 22 de julho de 1647. Foi batizada três dias depois, tendo como padrinho um primo de seu pai, o Padre Antônio Alacoque, e como madrinha a senhora Margarida de Saint-Amour, esposa do senhor de Corcheval, Cláudio de Fautrières.

Viviam com Cláudio Alacoque, além da mulher e filhos, a mãe viúva, Joana Delaroche; a irmã Benedita, casada com o primo Toussaint Delaroche, e seus quatro filhos; e sua tia-avó, Benedita Meulin, mãe de Toussaint.

Cláudio, além de exercer o cargo de tabelião em Lhautecour, era juiz dos senhorios de Terreau, Corcheval e Pressy, e também notário ordinário de Terreau e Corcheval, o que lhe dava certa importância na vizinhança e fartura em casa. Por isso, era presença indispensável em quase todos os casamentos e batizados locais, seja na qualidade de padrinho, seja na de testemunha.

Preservada, desde o berço, da mancha de pecado atual

Deus queria Margarida desde o berço só para Si. “Ó meu único Amor – narra ela em sua autobiografia –, quanto vos não devo eu, por vos terdes adiantado a mim desde a mais tenra infância, tornando-vos o senhor e possuidor do meu coração, apesar de bem conhecerdes as resistências que ele vos havia de opor! Logo que tive consciência de mim, fizestes ver à minha alma a feiura do pecado, imprimindo em meu coração tanto horror a ele, que a menor mancha me era insuportável tormento; e para me moderarem na vivacidade da minha infância, bastava dizerem-me que aquilo consistia em ofender a Deus; isto logo me continha, e me apartava do que eu queria fazer”.

Margarida teria uns quatro anos quando, a pedido da madrinha, foi morar com ela em seu castelo, em Beauberry. Queria a nobre dama, como era costume no tempo, cuidar da educação da afilhada.

Na capela de Corcheval, aos cinco anos de idade, “sem saber o que dizia, sentia-me continuamente impelida a dizer estas palavras: ‘Meu Deus, eu Vos consagro a minha pureza e Vos faço voto de perpétua castidade’”.

Contemplativa desde a infância e devota de Nossa Senhora

Afirma seu primeiro biógrafo: “Desde a infância lhe ensinou o Espírito Santo o ponto capital da vida interior, comunicando-lhe o dom de oração. Seu maior prazer era passar horas inteiras em oração; quando não a encontravam em casa, iam à igreja, onde deparavam com ela imóvel diante do Santíssimo Sacramento”.

No ano de 1654, Margarida, com oito anos, voltou para o lar paterno. Mas não para gozar por muito tempo da alegria da família reunida. Nesse ano morreu-lhe a irmãzinha Gilberta, e no seguinte o pai, aos 41 anos. Deixava a viúva com cinco filhos para cuidar (sendo que o caçula tinha apenas quatro anos), e uma situação econômica apenas equilibrada.

A senhora Alacoque colocou os filhos mais velhos em colégios, e Margarida como educanda no convento das clarissas mitigadas de Charolles.

Vendo sua precoce piedade, as monjas permitiram que fizesse a Primeira Comunhão aos nove anos de idade, quando o costume na época era aos doze. Afirma ela: “Esta comunhão derramou tanto amargor em todos os meus prazeres e divertimentos, que já não podia achar gosto em nenhum, apesar de os procurar com afã”.

Sinal de predestinação é a devoção a Nossa Senhora. E Margarida sempre a teve desde os albores da razão: “A Santíssima Virgem teve sempre grandíssimo cuidado de mim, e a Ela é que eu recorria em todas as minhas aflições. Foi Ela que me apartou de perigos muito grandes”.

Antes mesmo de São Luís Maria Grignion de Montfort ter popularizado a devoção da Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, Margarida consagrou-se a Ela como escrava.

“Os ossos furavam-me a pele de todos os lados”

Uma alma com uma vocação tão especial como a de Margarida Maria deveria seguir a trilha do sofrimento. Entretanto chegara ela aos 11 anos de idade sem praticamente ter conhecido de perto a cruz de Nosso Senhor. E Ele queria que sua filha predileta dela participasse.

Uma grave doença, que alguns diziam ser reumatismo, e outros paralisia, pôs a vida de Margarida em perigo, obrigando a família a retirá-la do convento e levá-la para casa. A doença durou quase quatro anos. A menina ficou semiparalítica e tão magra, que “os ossos furavam-me a pele por todos os lados”, e não podia andar. Os médicos esgotaram toda a sua ciência sem nenhum resultado.

Resolveu então consagrar-se a Nossa Senhora, prometendo-lhe que, se sarasse, seria uma de suas filhas. “Apenas fiz o voto – declara Margarida – fiquei logo curada da doença, com nova proteção da Santíssima Virgem, a qual tomou tão inteira posse do meu coração, que, olhando-me como filha sua, governava-me como coisa que lhe fora consagrada; repreendia-me por minhas faltas e ensinava-me a cumprir a vontade de Deus”.

Sua mãe tinha-se despojado da própria autoridade

Quando Cláudio Alacoque era vivo, devido à importância e prestígio de que gozava, todos viviam em paz em casa sob a autoridade paterna. Mas assim que ele morreu e Toussaint Delaroche tomou a direção dos negócios, sua mulher e sua sogra também se impuseram. E com tal tirania, que se tornaram as donas absolutas da casa: “Minha mãe tinha-se despojado da própria autoridade em sua casa, para a conceder a outras pessoas. […] Não tínhamos, pois, nenhum poder em nossa casa, nem nos atrevíamos a fazer coisa alguma sem licença. Era uma guerra contínua; e tudo estava fechado à chave, de sorte que eu muitas vezes nem sequer encontrava com que me vestir para ir à Missa, senão pedindo touca e vestido emprestados”.

Nosso Senhor queria dela, também nisso, uma virtude heróica: “Nem uma queixa, nem um desabafo ou ressentimento consentia Ele em mim contra aquelas pessoas; nem que eu permitisse que outros me lastimassem ou tivessem compaixão de mim”.

Consolo de Nosso Senhor e devoção eucarística

Margarida procurava seu consolo na oração. E o próprio Nosso Senhor quis ser seu mestre: “Mandava-me prostrar-me humildemente diante de Si, para lhe pedir perdão de tudo aquilo em que O tivesse ofendido”.

Posta assim na presença do Senhor, Ele “tão fortemente absorvia o meu espírito, embebendo em Si a minha alma e todas as minhas potências, que não cometia distração alguma; pelo contrário, sentia o coração consumido em desejos de O amar. E daqui me nascia uma fome insaciável da Sagrada Comunhão e de sofrimentos”.

A maior possibilidade de união com Nosso Senhor, que Ele nos deixou na Terra, é a que se dá na Sagrada Comunhão, na qual recebemos verdadeiramente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo. Daí a “fome insaciável” que Margarida sentia da Sagrada Comunhão, encontrando diante do Santíssimo Sacramento todas as suas delícias. Ali sentia-se “tão absorta, que nunca me aborrecia. Ali passaria dias e noites inteiras sem comer nem beber, e sem saber o que fazia, consumindo-me em sua presença como uma tocha acesa, para pagar-lhe amor com amor”.

Provada nas seduções do mundo e convidada pela graça

Em 1663 Margarida iria sofrer um rude golpe. Seu irmão mais velho, João, tendo acabado os estudos em Charolles, estava pronto a iniciar sua carreira de notário quando, aos 23 anos de idade, foi ceifado pela morte.

O segundo irmão, Carlos Felisberto, tendo concluído igualmente os estudos, voltou para casa. Ele e a mãe conceberam então o plano de casar Margarida, já com 17 anos. A família Alacoque era bem relacionada e estimada em toda a região. E Margarida, sem ser rica, tinha o suficiente para um dote digno. Ainda que não se destacasse por especial formosura, não deixava de ter certos atrativos, sobretudo de espírito.

A pressão que fizeram sobre a adolescente foi terrível. “Por fim, o terno amor da minha extremosa mãe começou a prevalecer. […] Comecei então a olhar para o mundo e a adornar-me para lhe agradar, procurando divertir-me quanto podia”.

Mas, se ela era persistente em sua falta, Nosso Senhor era persistente em sua misericórdia: “Depois, à noite, quando tirava aquelas malditas librés de Satanás, isto é, os vãos enfeites, instrumentos da malícia dele, aparecia-me o meu soberano Senhor, como na flagelação, completamente desfigurado, fazendo-me terríveis queixas: que as minhas vaidades o tinham reduzido àquele estado; que eu perdia um tempo tão precioso, de que Ele me havia de pedir rigorosa conta à hora da morte; que o atraiçoava e perseguia, depois de Ele me ter dado tantas provas de amor e me ter mostrado todo o seu desejo de que eu me tornasse semelhante a Ele”.

Novos sofrimentos e ação da divina misericórdia

A cena era pungente. E a alma de Margarida não era insensível a tantas graças: “Tudo isto se imprimia em mim tão fundamente, e me fazia tão dolorosas feridas no coração, que eu chorava amargamente; ser-me-ia muito difícil explicar tudo quanto sofria e se passava em mim”. Para compensar, entregava-se ela às mais terríveis penitências.

E eis que faleceu quase repentinamente, em 25 de setembro de 1665, Cláudio Felisberto, também na idade de 23 anos. Foi nova provação para a família. Só restavam, além de Margarida, Crisóstomo, o penúltimo, e Jaime, o caçula, que queria seguir a carreira eclesiástica.

Narra Margarida: “Estando como engolfada num abismo de espanto, por ver que tantos defeitos e infidelidades minhas não eram capazes de O afastar de mim, deu-me o Senhor esta resposta: ‘É que me apraz fazer de ti como que um composto do meu amor e das minhas misericórdias’”.

Correspondendo à graça, define sua vocação

A intimidade com que Nosso Senhor lhe aparecia e falava é de pasmar. Ela como que vivia na presença perceptível de Deus.

Entretanto, “porque era muito débil”, Nosso Senhor pediu consentimento para se assenhorear de sua liberdade. “Não pus dificuldade nenhuma em consentir; e desde então [Nosso Senhor] apoderou-se tão fortemente da minha liberdade, que nunca mais gozei dela em todo o resto da minha vida”.

Isto, é claro, é um modo de dizer, pois Deus não tira a ninguém o livre arbítrio. O que na realidade se dava é que Nosso Senhor fortificava de tal modo a sua vontade, por meio de graças especiais, que esta já não vacilava. O que corresponde ao máximo grau de liberdade, que é o conformar a própria vontade livre com a soberana vontade de Deus. Livres, verdadeiramente, não são os que pecam, mas os que, podendo fazê-lo, não o fazem.

Margarida resistiu durante três anos às pressões que lhe faziam para casar-se. Com o auxílio de um missionário que pregava missões na região, conseguiu finalmente convencer Crisóstomo e a mãe de que seu lugar era no convento.

Entrada no convento e novos sofrimentos

No dia 25 de agosto de 1671, festa de São Luís Rei, ela tomou o hábito de noviça: “Estando já revestida do nosso santo hábito, meu divino Mestre fez-me ver que era chegado o tempo dos nossos esponsais, que davam a Ele novo domínio sobre mim e me traziam dobrada obrigação de O amar com amor de preferência”.

Margarida banhava-se em lágrimas, cuja razão ninguém sabia explicar, parecia afogueada e meio fora de si; quebrava as coisas, e parecia incapaz de qualquer serviço.

Ora, essa via mística não era própria do convento da Visitação. Por isso, outras religiosas apontavam-lhe o comportamento como singular, e as superioras ordenavam-lhe que se conduzisse como todas as outras, sob pena de não admiti-la à profissão, o que causava grande perplexidade à noviça e era nova fonte de sofrimentos.

“Eu te farei mais útil à Religião do que ela pensa”

Mudara a superiora na Ascensão de 1672. A nova era Madre Maria Francisca de Saumaise, professa do mosteiro de Dijon, que havia sido dirigida desde seus primeiros anos pela própria Fundadora da Visitação, Santa Joana de Chantal. Havia entrado para a Visitação em Dijon aos 10 anos de idade, para ali proceder à sua educação; aos 15 anos era noviça, e no ano seguinte fez a profissão.

Ela decidiu favoravelmente sobre a profissão da Irmã Margarida Maria.

Quando esta transmitiu-lhe uma mensagem de Nosso Senhor, a Madre mandou-lhe que Lhe pedisse, como sinal de que era realmente Ele que falava, que a tornasse útil à comunidade pela prática de suas regras.

“A isto – diz Margarida Maria – respondeu-me o Senhor em sua amorosa bondade: ‘Pois bem, minha filha, tudo isto te concedo; e eu te farei mais útil à Religião do que ela pensa, mas há de ser de uma maneira que até agora só eu sei; de hoje em diante acomodarei as minhas graças ao espírito da tua regra, à vontade de tuas superioras e à tua fraqueza; assim terás por suspeito tudo o que se apartar da exata observância da tua regra, que eu quero prefiras a tudo o mais”.

Vítima do Sagrado Coração de Jesus

Algum tempo antes dos exercícios espirituais, Nosso Senhor apareceu a Margarida Maria e lhe disse: “Eu procuro uma vítima para meu Coração, a qual queira se sacrificar como uma hóstia de imolação para o cumprimento de meus desígnios”. Ela se prosternou e lhe apresentou “diversas almas santas que correspondiam fielmente a seus desígnios”. Nosso Senhor lhe respondeu: “Não, eu não quero outra senão tu”.

Margarida protelava entretanto o pedido de permissão à Superiora: “Mas era em vão que eu lhe resistia, porque Ele não me deu repouso até que, por ordem da obediência, eu fosse imolada a tudo o que Ele desejava de mim, que era de me tornar uma vítima imolada a toda sorte de sofrimentos, de humilhações, de contradições, de dores e de desprezos, sem outra pretensão senão cumprir seus desígnios”.

Fez sua profissão no dia 6 de novembro de 1672. Como uma esposa, Margarida deveria participar agora, de um modo mais direto, dos interesses de seu divino Esposo, que a preparava para a grande missão de sua vida: receber e propagar a devoção ao Sagrado Coração de Jesus.

“Meu Coração está abrasado de amor pelos homens”

Estando diante do Santíssimo Sacramento no dia 27 de dezembro de 1673, Nosso Senhor lhe disse: “Meu divino Coração está tão abrasado de amor para com os homens, e em particular para contigo, que, não podendo já conter em si as chamas de sua ardente caridade, precisa derramá-las por teu meio, e manifestar-se-lhes para os enriquecer de seus preciosos tesouros, que eu te mostro, os quais contêm a graça santificante e as graças salutares indispensáveis para os apartar do abismo da perdição; e escolhi a ti, como abismo de indignidade e ignorância, para a realização deste grande desígnio, para que tudo seja feito por mim”.

E acrescentou: “Se até agora não tomaste senão o nome de minha escrava, eu te dou o de discípula dileta do meu Coração”.

Graças especiais onde houver imagem do Coração de Jesus

É bem provável que a Segunda Grande Revelação — da qual, infelizmente, não se consignou a data — tenha ocorrido numa primeira sexta-feira do mês no ano de 1674.

Nosso Senhor lhe fez ver que “o ardente desejo que Ele tinha de ser amado pelos homens e de os retirar da via da perdição, onde Satanás os precipita em multidão, o havia feito formar esse desígnio de manifestar seu Coração aos homens. […] Ele queria a imagem exposta e portada sobre mim, e sobre o coração, para aí imprimir seu amor e cumular de todos os dons de que ele estava pleno, e para nele destruir todos os movimentos desregrados; e que, em toda parte onde essa santa imagem fosse exposta para aí ser honrada, Ele aí espalharia suas graças e bênçãos; e que essa devoção era como um último esforço de seu amor, com que queria favorecer os homens nestes últimos séculos, desta redenção amorosa, para os retirar do império de Satanás”.

“Excesso a que tinha chegado em amar os homens”

A data da chamada Terceira Grande Revelação não ficou registrada. Ocorreu provavelmente em 1674, num dia em que o Santíssimo Sacramento encontrava-se exposto. Margarida entrou em êxtase e viu Nosso Senhor Jesus Cristo “todo radiante de glória com suas cinco chagas, brilhantes como cinco sóis; e a sua sagrada humanidade lançava chamas de todos os lados, mas sobretudo de seu sagrado peito, que parecia uma fornalha. […] Abrindo-o, descobriu-me seu amantíssimo e amabilíssimo Coração, que era a fonte viva daquelas chamas. Foi então que Ele me mostrou as maravilhas inexplicáveis do seu puro amor, e o excesso a que ele tinha chegado em amar os homens, de quem não recebia senão ingratidões e friezas”.

“Eis o Coração que tanto amou os homens”

A mais conhecida de todas as revelações, e em certo sentido a mais importante delas, ocorreu segundo os estudiosos entre 13 e 21 de junho de 1675, dentro da Oitava da Festa do Corpo de Deus. Nosso Senhor, descobrindo-lhe o seu divino Coração, disse-lhe:

“Eis o Coração que tanto amou os homens; que a nada se poupou até se esgotar e consumir, para lhes testemunhar o seu amor. E em reconhecimento não recebo da maior parte deles senão ingratidões, pelos desprezos, irreverências, sacrilégios e friezas que têm para comigo neste Sacramento de amor. Mas o que é ainda mais doloroso é que os que assim me tratam são corações que me são consagrados. Por isso te peço que a primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento seja dedicada a uma festa particular para honrar o meu Coração, reparando a sua honra por meio dum ato público de desagravo e comungando nesse dia para reparar as injúrias que recebeu durante o tempo que esteve exposto nos altares. E Eu te prometo que o meu Coração dilatar-se-á para derramar com abundância o influxo do seu divino amor sobre aqueles que Lhe renderem esta homenagem”.

Grande promessa da Comunhão reparadora

Embora fugindo à ordem cronológica da biografia de Santa Margarida Maria, parece-nos oportuno apresentar aqui a chamada Grande Promessa, revelada já no fim da vida da vidente de Paray-le-Monial: “Eu te prometo, na excessiva misericórdia de meu Coração, que seu amor todo poderoso concederá a todos aqueles que comungarem em nove primeiras sextas-feiras do mês, consecutivas, a graça da penitência final, não morrendo em minha desgraça e sem receber os sacramentos, tornando-se [meu divino Coração] seu asilo seguro no derradeiro momento”.

Tantas graças da mais alta mística não podiam passar despercebidas, e refletiam-se no exterior de Margarida Maria, que andava como que transportada.

São Cláudio la Colombière chancela as revelações

Madre de Saumaise ficava cada vez mais confusa no julgamento que deveria fazer de Margarida Maria. Achava-a piedosa, obediente, dócil; entretanto não conseguia interpretar os fenômenos místicos que se passavam com ela. Acreditava na sua sinceridade, porém não tinha ciência teológica para julgar por si mesma o espírito que guiava Margarida. Por isso, julgou prudente fazer com que ela conversasse com alguns eclesiásticos e lhes expusesse o que com ela se passava, para ver que opinião formariam dela. E especialmente com o Padre la Colombière, recentemente nomeado diretor da casa dos jesuítas de Paray.

Logo em sua primeira preleção às monjas, ele notou uma que o ouvia mais atentamente. A superiora informou-lhe que se tratava da Irmã Margarida Maria. “É uma alma visitada pela graça”, comentou o jesuíta.  Ao mesmo tempo, uma voz interior dizia a Margarida: “Eis aquele que te envio”.

Como os santos geralmente falam a mesma linguagem, o Padre la Colombière e a Irmã Margarida Maria logo se entenderam. Por ordem da Madre de Saumaise, “abri-lhe então, sem custo e com toda a lhaneza, o coração, e descobri-lhe o íntimo de minha alma, o bem e o mal”, relata Margarida Maria em sua autobiografia.

Cláudio la Colombière representou assim a caução humana das visões de Margarida Maria. Acontecesse o que fosse — e muita perseguição e incompreensão ainda teriam lugar —, um fato irremissível estava posto: o jesuíta afamado por sua prudência e segurança de juízo estava certo da autenticidade das visões da Irmã Margarida Maria.

Nova Superiora prova Margarida Maria

Madre Péronne Rosália Greyfié chegou para substituir a Madre de Saumaise, no dia 18 de junho de 1678. Ao contrário desta, de grande simplicidade e amabilidade, a Madre Greyfié era rígida e austera, e tomou o partido de fingir que ignorava tudo o que se passava com Margarida Maria, deixando-a até ser objeto de críticas da comunidade, mesmo em coisas por ela autorizadas. Entretanto, tinha-a em alta conta: “Eu notava ainda que as graças que Nosso Senhor lhe concedia serviam para aprofundá-la no baixo sentimento que tinha de si mesma, o que a fazia crer que todas as criaturas tinham o direito de a desprezar e criticar em tudo, levando-a a amar como um tesouro essas ocasiões, das quais ela teria querido somente excluir o que ofendesse a Deus, afligindo-se de ser a causa disso”.

Nosso Senhor lhe disse outro dia que, como havia feito em relação a Jó, o demônio pedira para tentá-la “no cadinho das contradições e humilhações, das tentações e desamparos, como o ouro no fogo”, e que Ele tudo permitira, exceto que a tentasse contra a pureza; que Ele estaria em seu interior como fortaleza inexpugnável, resistindo por ela. “Mas era necessário vigiar continuamente sobre todo o exterior, que do interior cuidaria Ele”. Desde então o demônio não lhe dava trégua, chegando mesmo, uma vez, a lançá-la do alto de uma escada com um braseiro na mão. Mas seu Anjo da Guarda amparou-a e ela nada sofreu. 

“Não haverá quem queira padecer comigo?”

Indo um dia comungar, Margarida viu a sagrada Hóstia resplandecente como um sol. Em seu centro estava Nosso Senhor Jesus Cristo tendo uma coroa de espinho na mão. Colocou-a na cabeça de Margarida, dizendo: “Toma, minha filha, esta coroa em sinal da que em breve te será dada, para te assemelhares a mim”. A religiosa diz que no momento não compreendeu o significado daquilo, mas que bem depressa o soube por duas violentas pancadas que recebeu na cabeça, “de maneira que me parecia ter a cabeça rodeada de pungentíssimos espinhos, cujas picadas não acabarão senão com a minha vida”.

Na proximidade da Quarta-feira de Cinzas, provavelmente de 1681, Nosso Senhor apareceu-lhe depois da Sagrada Comunhão, “carregando a Cruz, todo coberto de chagas e pisaduras, escorrendo o sangue por todo o corpo”. Disse-lhe: “Não haverá ninguém que tenha compaixão de mim e queira padecer comigo e tomar parte na minha dor, no lastimoso estado a que me reduzem os pecadores, sobretudo agora?”

A generosa Margarida Maria prosternou-se junto aos pés divinos e ofereceu-se, em lágrimas e gemidos, para carregar a Cruz. Esta pareceu-lhe toda cheia de pontas de prego, e ela sentiu-se quase sucumbir sob seu peso. Com isso, diz ela, “comecei a compreender melhor a gravidade e malícia do pecado, que eu detestava tanto em meu coração, e mil vezes preferia precipitar-me no inferno em vez de cometer um só pecado voluntariamente”.

Mensagem ao “filho primogênito de meu Coração”

A devoção ao Coração de Jesus ia fazendo seu caminho, dentro e fora dos muros da Visitação. O Sagrado Coração queria, entretanto muito mais. Desejava ser adorado pelas elites, pela nobreza do país e do mundo, mas também que essa vitória viesse por intermédio do mais poderoso monarca da época.

Assim, incumbiu a sua fiel serva de transmitir ao Rei da França, Luís XIV — a quem chama afetuosamente “filho primogênito de meu Sagrado Coração” — a seguinte mensagem: Queria associá-lo ao triunfo de seu Sagrado Coração, prometendo-lhe, caso fizesse o que lhe era pedido, cobri-lo de glória ainda nesta Terra, como a nenhum outro Rei, e por fim conceder-lhe a glória do Céu.

Não sabemos se o augusto destinatário tomou conhecimento da divina mensagem, nem se ela foi entregue ao confessor do Rei, Padre de La Chaise. Uma coisa, entretanto, é certa: os pedidos do Sagrado Coração de Jesus ao Rei Luís XIV jamais foram atendidos.

Não viveria muito mais, porque não sofria mais

Uma nova superiora, Madre Catarina Antonieta de Lévy-Châteaumorand, para aliviar ou para provar a Irmã Margarida, que apesar de ter somente 43 anos já estava muito enfraquecida pelas penitências e longas enfermidades, proibiu-lhe a hora de adoração noturna da quinta para a sexta-feira e todas as austeridades que ela praticava, exigindo-lhe mesmo a devolução dos instrumentos de penitência.

No mês de junho de 1690, Margarida dizia: “Eu não viverei muito mais, porque não sofro mais”. Com efeito, esta santa, considerada uma das maiores místicas da Igreja, entregou sua bela alma a Deus no dia 17 de outubro desse mesmo ano. Foi canonizada no pontificado do Papa Bento XV, no ano de 1920.

Reflexão

A história de Santa Margarida nos transporta ao Evangelista e Apóstolo João, que tinha por costume reclinar sua cabeça junto ao peito de Jesus.  Ali encontrava abrigo e proteção;  com íntima pureza de criança, ouvia  as batidas do Sagrado Coração, penetrando em todos os seus insondáveis mistérios, na plenitude de Sua misericórdia, do Seu Amor infinito.  Os evangelistas referem-se a ele como “o discípulo que Jesus amava”.  Ele que, junto a Maria Santíssima fez-se presente aos pés da Santa Cruz;  ele, que representando toda a humanidade, recebeu das mãos de Jesus, Maria.  A Mãe de Deus, naquele momento,  era a ele confiada como Mãe de todos os homens. É certo que São João foi Maternalmente consolado e amparado, encontrando  junto ao Imaculado Coração, o mesmo aconchego filial que recebera carinhosamente do Divino Mestre. 

Santa Margarida, ao ser milagrosamente curada, propôs-se a  entrar no Convento das Irmãs Ursulinas, mas Jesus como que “cochichando” em seu ouvido, mandou que ingressasse no Mosteiro de Santa Maria da Visitação, pela devoção que a congregação cultivava pelos Corações de Jesus e Maria.  Assim como São João,  Santa Margarida conheceu o Coração de Jesus de perto, penetrando nas suas mais íntimas maravilhas, impossíveis de serem assimiladas pelo nosso frágil discernimento.  Mas é justamente para nós que está direcionada esta graça, a graça de obter os favores espirituais através da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. É mais um dom precioso que o Senhor nos deixou por herança. Não passemos indiferentes diante deste tesouro valiosíssimo, capaz de proporcionar abundantes graças não só para nós ou para nossas famílias, mas extensiva a todas as pessoas que andam mais afastadas da Igreja e particularmente, às almas que ainda padecem no purgatório. Santa Margarida Maria Alacoque, rogai por nós. Amém!

Fonte:

http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?idmat=E32614F8-FACA-4A4B-4559A60AD93FF3EE&mes=Julho2004

http://www.paginaoriente.com/anoeclesiastico/margaridaml1610.htm

Grifos Nossos

  1. Ainda sem comentários.
  1. No trackbacks yet.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: